Resenha do blog: Faroeste Caboclo

“Às vezes não é a gente que escolhe nosso destino. É o destino que escolhe a gente.” Esta frase (ou algo parecido) é repetida várias vezes por João de Santo Cristo durante o filme. Mas um pequeno detalhe fica escondido nesta afirmação: se existe uma pessoa que jamais poderia dizer que sua vida foi, inconscientemente, planejada sem que ele tivesse algum controle sobre isso, é este protagonista. Desde criança suas escolhas não poderiam levar a outro destino senão este que ele enfrenta. Por mais que o filme nos leve a crer que João é somente um cara levado pelas circunstâncias, vítima de seu próprio destino, e não de suas péssimas escolhas. O velho e batido clichê que diz que a culpa é sempre do sistema.
Adaptação cinematográfica de uma das mais conhecidas musicas do grupo Legião Urbana, Faroeste Caboclo chega à tela grande com muitas liberdades artísticas. Quem for ao cinema esperando os acontecimentos da mesma forma que são cantados por Renato Russo, ou até mesmo as falas dos protagonistas ditas na musica, irá se decepcionar. O filme voa de forma diferente. O final da saga de Santo Cristo, Maria Lucia e Jeremias é o mesmo, claro, mas corre de outra forma.
João de Santo Cristo é filho de agricultores. Quando criança, após tentar roubar doces em um bar vê seu pai defendê-lo e logo depois ser morto por um policial. Sem muitas explicações resolve deixar a cidade de Santo Cristo (não sem antes vingar a morte do pai e ir preso) e ruma para Brasília. Lá, procura um primo distante, traficante, e facilmente entra no mundo do tráfico e consumo de drogas. Em momento algum João se questiona sobre o certo e o errado, e rapidamente se torna traficante e fugitivo da polícia. Uma coisa leva à outra e entre tiros, cigarros de maconha e carreiras de cocaína, João e Jeremias se enfrentarão no lote 14 da Ceilândia tendo a grávida Maria Lúcia como testemunha.
Mais sobre o roteiro é desnecessário dizer. Presente no subconsciente de boa parte da população com 40 anos ou menos, junto com Eduardo e Monica, Quase Sem Querer, Geração Coca-Cola e mais algumas outras, Faroeste Caboclo é um daqueles hinos de juventude presente ainda hoje em qualquer festinha ou reunião onde um dos amigos tenha um violão, 26 anos depois de seu lançamento.
Dirigido por René Sampaio e com nomes como Isis Valverde e Antonio Caloni no elenco, por mais que a história do filme não seja completamente fiel à musica, o filme em si é bom, funciona, apesar de ser televisivo demais em diversos momentos. Os atores cumprem seu papel sem maiores destaques. O novato Fabricio Boliveira no papel do protagonista convence, Isis Valverde como Maria Lucia se distancia bastante de suas personagens da TV e Felipe Abib como o antagonista Jeremias às vezes pesa na mão, mas não chega a atrapalhar o processo.
Na verdade o que mais incomoda no filme é o fato de seu protagonista ser, sem meias palavras, um bandido. Em momento algum João de Santo Cristo transmite bondade ou arrependimento. Em momento algum se propõe a não agir como um marginal. Uma glamurização de drogas e bandidagem ao ponto de nunca um dos personagens se colocar contra isso. Nenhum deles. Tudo bem, este pode ser o retrato de um grupo ou quiçá de uma geração (ou várias), mas o fato de tudo estar tão natural na tela causa um grande desconforto. Tudo bem, os traficantes rivais se dão mal no final, isso a gente sabe, mas as festas, os comportamentos dos usuários, o barato continuam lá dizendo que usar é bacana, só não pode vender.
Faroeste Caboclo passa a ser então algo diferente de um filme e da adaptação para o cinema de uma das musicas jovens mais conhecidas do Brasil. Também não é um retrato de uma geração ou de um momento histórico. Passa a ser um manifesto pró-drogas. Quando sobem os créditos e a musica em si finalmente toca, o que fica na cabeça é uma sensação de desconforto por conta daquele anti-herói pelo qual não conseguimos torcer por um segundo sequer. Talvez por culpa de seu ator que não possui carisma algum, João deixa de ser o cara que a gente não concorda com o modo de vida, mas  torce, e passa a ser alguém que não nos provoca simpatia alguma; aquele cara que pensamos ‘ele teve o que procurou’ ou, de forma mais radical, o que mereceu. João de Santo Cristo era um bandido. Viveu e morreu como bandido. E não conseguimos nos compadecer de seu destino, afinal por mais que ele afirme o contrário, foi ele quem o escolheu. Você não irá encontrar em cena nem um traço daquele cara que quando foi pra Brasília “queria era falar pro presidente pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer”. O João de Santo Cristo do filme não pensa em ninguém além de si mesmo.

5 comentários em “Resenha do blog: Faroeste Caboclo

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  1. Muito bom seu texto. Discordo sobre suas afirmações de o João do filme não ter carisma e só pensar em si mesmo, porém. De fato fica claro que ele é um bandido (mas quem não sabe disso pela música?) – o que é bom, pois estávamos esperando um anti-herói e foi o que tivemos, com uma excelente interpretação, mas ao longo do caminho ele afasta Maria Lúcia de sua vida no intuito de protegê-la, ele não pratica crueldades ''gratuitamente'' como alguém sem escrupulos – também dispenso essos argumentos de que a culpa de tudo é 'do sistema', mas as mais importantes reações do protagonista foram sum motivadas pelas coisas que viu e sofreu. Ele não era um cara mau e nem egoísta. Nas falas da Maria Lúcia ''não quero isso pra mim, João'' fica um ínfimo 'protesto' contra a situação das drogas, mas aí você tem que aceitar de alguém que cheira, fuma vai pra aquelas baladas não seria realmente a personificação do ''Diga não as drogas'', né?

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