Resenha do site – Cine Holliúdy

cine-holliudy-poster1Em agosto deste ano um filme nadou contra a corrente no Brasil. Estreou com nove cópias em cidades do Ceará somente e, ainda assim, foi a 9ª maior bilheteria do fim de semana em todo o país. O filme foi visto por quase 23 mil pessoas no primeiro final de semana, com uma média de 2.555 espectadores por cópia. Pra se ter uma ideia, o filme de maior bilheteria no Brasil neste mesmo final de semana foi Smurfs 2, com 439 mil espectadores. Porém, Smurfs 2 estava sendo exibido em 284 salas, e teve uma média de 1.548 espectadores por cópia. Percebeu a diferença?

O espanto vai além: este filme é completamente regional, a ponto de ser exibido com legendas, já que talvez nem no próprio Ceará se entendesse o “cearencês” falado na tela. Quer mais? Ele se passa na década de setenta e, pasme, não fala nem de ditadura nem de violência urbana. Aliás, não existe sequer uma cena de sexo, beijo na boca só um, e palavrão tão fora de contexto que nem chega a ser palavrão. Atores conhecidos? Praticamente nenhum. Propaganda na novela das oito? Também não. Mas então como o filme conseguiu esta façanha?

É simples. Raro, mas simples: a qualidade falou mais alto. Cine Holliúdy é muito bom. Deliciosamente engraçado e ingênuo. Pode facilmente figurar ao lado de Domésticas, de Fernando Meirelles, como um dos melhores filmes dos últimos anos no país. Aliás, a semelhança com Domésticas está também na linguagem simples e regionalista. E o próprio Meirelles em seu Twitter já comparava o humor de Cine Holliúdy a Oscarito e Chaplin. E não é a toa.

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O filme conta a história de Francisgleydison (Edmilson Filho). Na década de 70 ele era um exibidor de cinema mambembe com medo de se tornar obsoleto com a chegada da televisão. Ao lado da mulher e do filho, eles se mudam para a cidade de Pacatuba e lá pretendem abrir um cinema “de verdade”. Utilizando fitas antigas que ele mesmo redubla, a abertura do cinema se torna o maior acontecimento do lugar e não tarda para que o prefeito queira dizer que aquilo tudo é obra de sua campanha. Mas o filme não envereda por este lado. É ágil como os filmes de kung-fu que mostra na tela e mais engraçado do que se possa imaginar.

Os personagens secundários são todos estereótipos de pessoas que poderiam ser encontradas facilmente nas ruas de qualquer cidade: o padre, o gago, a namoradeira, o gay afetado, a lésbica que gosta de futebol, o cara sarado que exalta o próprio corpo, o bêbado… todos eles contribuem com o humor do filme. Inspirado  no curta-metragem “Cine Holliúdy – O Astista Contra o Caba do Mal”, visto em 80 festivais de 20 países e que ganhou 42 prêmios internacionais, Cine Holliúdy – assim como o curta – é escrito por Edmilson Filho e dirigido por Helder Gomes (de As Mães de Chico Xavier). No elenco, participações do cantor Falcão, de Roberto Bomtempo e Miriam Freeland (ambos contratados de novelas da Rede Record).

A bem da verdade, acima e por conta de sua inocência e humor, Cine Holliúdy é um filme tocante sobre uma pessoa em busca de um sonho. Fancisgleydisson é apaixonado por cinema. Sua paixão é clara, sua dedicação ao seu sonho quase palpável. Apoiado sempre pela mulher ele vai atrás do que quer, se valendo de seu próprio talento se o filme no rolo falhar durante a exibição. Mesmo (ou por causa de) com seu regionalismo peculiar, seus personagens estereotipados, seu humor visual e sua pouca (ou nula) divulgação no restante do país, Edmilson Filho e Helder Gomes conseguem, sem a menor dúvida, fazer o melhor filme brasileiro de 2013.

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* A Rede Globo exibe Cine Holliúdy neste sábado, dia 21-12 no Supercine. A partir das 1h20.

5 comentários

  1. […] Cine Hollyúdi (2013). Você nunca, jamais estará preparado para este filme. Ele pega a gente totalmente de surpresa e quando vemos já estamos gargalhando com a história ingênua de Francigleydison e sua família e a luta para erguer um cinema nos confins do Ceará. Comparado a Chaplin e Oscarito, o humor do filme o transformou num fenômeno inusitado e raro: o filme esteve entre os 10 mais do país em seu final de semana de estreia passando somente em poucas salas do interior do Ceará. Leia a resenha AQUI. […]

  2. […] Direção: Halder Gomes – Sinopse: Você nunca, jamais estará preparado para este filme. Ele pega a gente totalmente de surpresa e quando vemos já estamos gargalhando com a história ingênua de Francigleydison e sua família e a luta para erguer um cinema nos confins do Ceará. Comparado a Chaplin e Oscarito, o humor do filme o transformou num fenômeno inusitado e raro: o filme esteve entre os 10 mais do país em seu final de semana de estreia passando somente em poucas salas do interior do Ceará. Leia a resenha AQUI. […]

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