Resenha do site – The Normal Heart

thenormalheart_posterAssistir à nova produção do canal HBO para TV é como levar um tapa na cara. Daqueles bem dados. E repetidas vezes. Não tem como ficar indiferente após o final do filme e não se questionar sobre inúmeros fatos a respeito de sua própria vida. Ainda mais de você for gay.

The Normal Heart conta a história da descoberta do vírus da AIDS em 1981. Passado em Nova York, o que começa com um tom leve de amigos gays se reunindo na praia logo muda de clima. E o clima do filme se tornará cada vez mais pesado, a ponto de você se encontrar afundando no sofá durante a exibição. Mark Ruffalo encarna com precisão cirúrgica o ativista Ned Weeks. Ativista ma non troppo.

Weeks é um homem passional e apaixonado pelos amigos. Diante de uma doença misteriosa que começa a dizimar todos à sua volta, ele decide que algo precisa ser feito. E numa luta de Dom Quixote contra os moinhos de vento, acaba se colocando sozinho contra o mundo e contra os próprios amigos que tanto tenta defender. Weeks briga com políticos, com gays que veem na doença uma ‘ameaça’ ao seu novo estilo de vida libertário conseguido com muita luta. Pouco se sabe sobre o “novo câncer” e a reação de todos é de incredulidade inicial. Somente a doutora Emma Brookner (Julia Roberts numa interpretação contida e eficiente) parece se preocupar com os causos que só aumentam. Os desmaios, as manchas no corpo, ataques de vômito e uma doença que em questão de dias levava à morte. E com a qual ninguém parecia se importar. E que, hoje sabemos, é uma epidemia mundial.

No surgimento da AIDS na década de 80, a doença era tratada como uma praga gay, uma doença ‘enviada por Deus’ para livrar o planeta dos pecadores. Demorou muito para que governo, órgãos de saúde e a população em geral percebesse que a doença não atacava somente gays. Ou mesmo para perceber os meios de transmissão. Enquanto isso, ela se alastrava por outras cidades e países e ia destruindo vidas com rapidez impressionante.

O filme conta o período de três anos desde os primeiros casos da doença até a luta final de Ned Weeks contra tudo e contra todos. Da criação de um órgão filantrópico para ajudar os contaminados às lutas com os amigos pelo poder de discutir e divulgar a doença, Ned enfrenta uma empreitada hercúlea ao lado do namorado (Matt Bomer, do seriado The White Collar) em um longa metragem que não poupa o espectador de imagens impactantes. A mensagem é clara: sim, o perigo existe, é real. Ainda. Para todos.

Mark Ruffalo carrega o filme auxiliado por atores de peso e qualidade. Seu Ned Weeks é, do menor dos trejeitos ao mais doce dos olhares, uma encarnação quase sobrenatural do ator. Esqueça Hulk, esqueça o ogro conquistador de Minhas Mães e Meu Pai. Ruffalo consegue criar uma persona totalmente nova e absurdamente real, cativante e apaixonada. Julia Roberts (que antes de qualquer personagem sempre será a ‘estrela’ Julia Roberts) consegue se desligar de seu carisma e sorriso aberto para dar vida à tetraplégica Dra. Brookner. Bomer no papel do namorado Felix impressiona mais pelos seus olhos despeitadamente azuis. Taylor Kitsch (outrora o Gambit no primeiro filme solo de Wolverine) é outro que mostra um talento incrível em cena, nos fazendo esquecer completamente de seu personagem anterior. Alfred Molina mostra porque é um dos atores mais respeitados do cinema no papel do irmão do protagonista. Já os dois atores advindos de seriados (Jonathan Groff, de Glee e Looking e Jim Parsons, de The Big Bang Theory) se limitam a repetir seus personagens. Mas nenhum deles importa muito diante da avalanche que é Mark Ruffalo em cena. Porém o filme não o pinta como herói. O longa é, na verdade, o retrato de um genocídio velado, ignorado, de milhares de pessoas que morreram vítimas do descaso de quem podia ter feito alguma coisa a tempo ee escolheu não fazer nada.

Um choque, um filme forte e corajoso, inacreditavelmente comandado pelas mesmas mãos que criaram Glee (Ryan Murphy), adaptado para o cinema de uma peça também escrita por Larry Kramer. Não fossem pessoas com a coragem de Ned Weeks, drag queens ou Harvey Milk os gays estariam ainda hoje sendo apedrejados na rua. Porém não é uma luta que já terminou. O preconceito continua, a falta de direitos continua. The Normal Heart ergue uma bandeira sim, sem vergonha alguma disso. Chega a ser difícil expressar o sentimento de quase inferioridade e inutilidade que se sente diante daquela luta ao final do filme. Tanta gente que lutou por algo que realmente poderia (e conseguiu) mudar o mundo. E hoje, pelo que se luta? Mais de 6000 pessoas são contaminadas pelo vírus da AIDS por dia no mundo. E esta luta, nos deixou onde? É quase impossível para o espectador homossexual terminar o filme sem pensar ‘E eu, estou lutando pelo que?’.

7 comentários em “Resenha do site – The Normal Heart

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  1. Entre desolada e inerte em meu sofá…desesperada e paralisada…não sei ainda descrever a sensação que o filme me trouxe. Estou inebriada com a atuação real dos brilhantes atores. Lamentável pensar que hoje, permanecemos de olhos fechados para a AIDS. Doloroso assistir, dramático, eufórico, real… Estou esgotada!!!

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