Resenha do site – Lucy

lucyAo contrário do que a esmagadora maioria dos filmes de seres com superpoderes nos ensinou até hoje, é possível sim fazer um filme do gênero com cérebro. Claro, este ano tivemos um ótimo exemplo disso, com X-Men: Dias de um Futuro Esquecido. Mas ao mesmo tempo, tivemos tantos outros exemplos do contrário (como Transformers 4, Tartarugas Ninja ou Guardiões da Galáxia). Mas então, por que não são feitos mais filmes inteligentes do gênero?

Bom, os números de bilheteria podem ser uma boa explicação: eles delineiam bem que o público gosta mesmo é de se divertir e pensar absolutamente nada. Guardiões já ultrapassou os U$320 milhões de dólares ao redor do mundo; Transformers 4 já bateu U$1 bilhão; e Tartarugas Ninja estreou com U$65 milhões nos EUA e já ultrapassou os U$100 milhões no mundo todo. Isso explica muita coisa. Explica porquê grandes estúdios investem mais em produções assim que em filmes com um mínimo de cérebro possível.

Com orçamento estimado em U$40 milhões de dólares (praticamente nada se comparado aos U$170 milhões de Guardiões ou os U$210 milhões de Transformers 4) e uma estrela de primeira grandeza do panteão hollywoodiano encabeçando o elenco enxutíssimo, o diretor Luc Besson produziu seu maior filme até aqui. Em 33 anos de carreira, o maior sucesso do diretor e roteirista era O Quinto Elemento. Aventura de ficção estrelada por Bruce Willis que (é bem verdade) carecia de muita inteligência mas acabou por se tornar um ícone cult. O filme de 1997 arrecadou U$63 milhões em exibição (compare com os números dos blockbusters citados no primeiro parágrafo deste texto: sua bilheteria total foi menor que a do final de semana de abertura de Tartarugas).

Com estreia marcada para 28 de agosto no Brasil, Lucy já estreou nos EUA no dia 25 de julho. Até hoje, soma uma bilheteria de mais de U$100 milhões. Escrito e dirigido por Besson, o filme tem como protagonista uma moça comum que, por um acidente peculiar passa a ter “superpoderes”. Como um livro que interrompe seus capítulos para manter o suspense, Lucy (o filme) tem suas cenas entrecortadas por uma explicação do cientista vivido por Morgan Freeman sobre o uso das capacidades cerebrais. Cientificamente falando, nós, seres humanos, utilizamos somente 10% da capacidade de nosso cérebro. Perdemos para os golfinhos, que usam 20%. A grande questão do filme é: o que aconteceria se aumentássemos este percentual? E se conseguíssemos atingir até mesmo 100% de nossa capacidade cerebral?

Lucy (Scarlet Johansson) acaba absorvendo uma droga neste acidente e vai aumentando gradativamente o uso de sua capacidade cerebral. E, como consequência natural, vai forçando o espectador a acompanhá-la. Ao invés de ter uma segunda metade que abdica dos neurônios em nome da ação, o filme leva o público a acompanhar a evolução da protagonista em sua busca por respostas e vingança mas não de forma acéfala. Queremos saber, temos perguntas, temos interesse naquela personagem ainda humana, ainda um pouco “como nós”. Assim como em 1997 Besson criou no público uma empatia com a alienígena Leeloo em O Quinto Elemento, novamente o diretor e roteirista mostra sua força em expor mulheres poderosas e frágeis ao mesmo tempo, que acabam por cair no gosto do público. Mas não se assuste: as perseguições, tiros e explosões ainda estão lá.

Não é a toa que Lucy estreou surpreendendo nos cinemas americanos. Estima-se que 50% da bilheteria do final de semana de estreia tenha sido de ingressos vendidos para o público feminino. O que acaba por desenhar um novo perfil no cinema, mesmo com filmes de super-heróis, tradicionalmente feitos para marmanjos.

Lucy (o filme) acaba sendo um ótimo exemplo de uma pequena evolução no cinema. Enquanto Lucy (a personagem) evolui na tela, quase chegamos a sentir uma pequena evolução nos filmes e entendemos: é possível um filme de ação/ficção inteligente. Se bem que diante dos números de bilheteria de filmes sem um pingo de inteligência, quem vai querer questionar? Cinema é entretenimento sim. É fonte de renda para estúdios sim. Mas é acima de tudo uma diversão que não pode nem deve ser emburrecedora. Nada impede que um filme seja tolo e bom. Sair disso é oferecer chiclete para o cérebro. E Lucy (o filme e a personagem) mostra que além de ser possível, a união da ação com a inteligência não apenas agrada e entretém, como deixa um gosto incrível de ‘quero mais’. Texto inteligente, belíssimas imagens e atores bons podem render uma ótima “bobagem”. Ao contrário dos filmes já citados, a produção não ultrapassa 1h30 de projeção e, ao subirem os créditos (enquanto somos embalados por uma música perfeita de Damon Albarn) ficamos com a vontade de ver de novo, com carteza de que Lucy é um dos melhores filmes do ano e com a sensação de ‘mas já acabou? que pena, realmente queria mais‘.

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