Resenha do site – Garota Exemplar

garota exemplarNão é fácil escrever sobre um filme como ‘Garota Exemplar’, que estreia esta semana no Brasil. É daqueles filmes que absolutamente qualquer coisa que se diga pode revelar algo importante.

Adaptado do best seller de Gillian Flyn (que também assina o roteiro do filme), ‘Garota Exemplar’ gira em torno do desaparecimento de Amy Dunne (Rosamund Pike): exemplar filha, esposa e dona de casa, ela desaparece de casa na manhã do quinto aniversário de seu casamento. O desaparecimento é notado pelo marido, Nick (Ben Affleck) e contar qualquer coisa além disso pode estragar a empreitada emocional que é o longa. Sim, porque trata-se de um filme de suspense dos melhores já produzidos.

Com uma veia quase hitchcockiana, David Fincher produz outra de suas obras primas. Diretor de mãos hábeis, Fincher se tornou conhecido do grande público com ‘Seven’, mas sua filmografia é vasta e recheada de obras fortes como ‘Vidas em Jogo’, Clube da Luta’, ‘O Quarto do Pânico’ ou ‘A Rede Social’. Volta e meia derrapa, é verdade, como em ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’ ou ‘Os Homens Que Não Amavam as Mulheres’ (refilmagem americana para o excelente suspense sueco), mas os altos são muito mais frequentes que os baixos em sua carreira. Mais recentemente o diretor foi responsável pelo comando do clipe de Suit & Tie, de Justin Timberlake e pela elogiada série ‘House of Cards’.

Fincher prova aqui que não são necessários rios de sangue para se construir um suspense eficiente (bom… mais ou menos). Calcado inteiramente no seu texto e interpretações devastadoras de Pike e Affleck (sim, você leu certo), o clima de aflição começa junto com o filme. Mas não termina com ele. O longa gira em torno de mentiras e suspeitas: Nick matou a esposa e está armando tudo aquilo? Ela fugiu? Foi raptada?Como explicar as evidências? Claro que pouco a pouco as mentiras vêm à tona e nossa aflição na poltrona só aumenta.

O ritmo do filme pode parecer estranho para alguns. Lá pela metade chegamos a pensar que ele acabou, olhamos no relógio e só se passou uma hora de projeção. De repente a coisa muda de figura e Fincher nos leva pela mão por mais um bom tempo de filme e sem nos darmos conta, passamos duas horas e meia no cinema completamente imersos numa história envolvente repleta de meias verdades e na beira do precipício da loucura. Como num ótimo livro de detetives, vamos relembrando fatos, colhendo pistas, não sabendo mais em quem acreditar.

Além do cinismo com que o diretor e a roteirista tratam o casamento de aparências, o circo da mídia é outro alvo fácil do filme. O desaparecimento convertido em ação comunitária, os repórteres que como abutres fazem ninho em frente à casa do casal, sites, panfletos, bottons e vigílias cercados de entrevistas, apresentadores de TV cheios de julgamentos pré-estabelecidos de boa moral. Tudo só faz aumentar o clima de aflição de Nick que, sendo verdade ou não, apresenta um olhar franco de desespero constante. Em determinado momento não sabemos mais quem é mocinho ou bandido, quem merece ou não punição, quem é o verdadeiro louco da história ou o são.

‘Garota Exemplar’ vem sendo cotado como um dos prováveis indicados ao Oscar do ano que vem nas categorias principais de filme, diretor e atores. É bem verdade que Affleck jamais esteve tão convincente no cinema. E Rosamund Pike entrega uma personagem de tamanha complexidade que chega a questionar as nossas próprias noções de certo e errado. A atriz que fazia somente pontas em filmes maiores, como ‘007: Um Novo Dia Para Morrer’, ‘Orgulho e Preconceito’ ou ‘O Retorno de Johnny English’ tem aqui sua grande chance como a exemplar Amy. Se o filme vai concorrer mesmo, só os meses dirão, embora pareça pouco provável. Em 2011 Fincher emplacou o ótimo ‘A Rede Social’ entre os indicados, um filme sem a menor cara de Oscar, em oito categorias e venceu três prêmios técnicos. Pode ser que consiga de novo, com esse filme não muito comercial. Se concorrer e vencer, quem subirá ao palco receber o prêmio será a atriz Reese Witherspoon: ela adquiriu os direitos do livro para o cinema e queria ser a protagonista. Dissuadida pelo diretor, assinou como produtora.

Mas o longa de Fincher está naquela linha tênue entre o comercial e o alternativo, entre o difícil e o deglutível. Depois de sermos atacados pela força da história, de imergir naquele mundo que parece tão irreal justamente porque parece tão possível, o difícil é tirar a história da cabeça. As verdades escondidas sob as aparências nos deixam pensando sobre todos que conhecemos e que podem, assim como Amy, não serem tão exemplares assim. Ou não, vai saber.

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