#nivamusica – Entrevistamos Siso, o eletropop brasuca que faltava na sua playlist

De quando em quando a música brasileira produz verdadeiros artistas pop de qualidade. Infelizmente não são todos que, assim como um Lulu Santos, permanecem. Em 2001 Lulo Scroback lançou um dos melhores discos de pop brasileiro de todos os tempos: Modernidade. Logo depois uma participação catastrófica no programa Casa dos Artistas limou sua carreira e o jogou no anonimato permanente.  Um ano antes, Jay Vaquer (colega de elenco de Lulo em Cazas de Cazuza) lançou Nem Tão São, outro disco espetacular de música pop brasileira. Vaquer não caiu no anonimato, mas desde então vem decaindo em qualidade, mirando um público adolescente a ponto de lançar neste ano um disco inaudível para qualquer pessoa com mais de 12 anos.

Este ano já descobrimos felizes Felipe de Vas, com sua voz suave e suas melodias doces. Agora descobrimos também Siso, que lembra muito Lulo Scroback e Jay Vaquer: letras de qualidade, melodias bem produzidas, eletropop de primeiríssima. E feito no Brasil. Sim, é possível fazer música pop de qualidade no Brasil.

Siso, que atende pelo nome de David Dines afirma que adotou o nome Siso por causa do simbolismo do dente como sinal do “questionável” amadurecimento. “A maturidade é algo que dói, rasga a carne e tem um papel evolutivo, assim como o siso. Mas ele também acaba sendo também meio descartável, como é o pop”, explicou o artista de 28 anos ao site Noisey.

Claro que, como não poderia deixar de ser, entrevistamos o cantor, que falou com a gente sobre música pop, influências, seu disco, carreira e discussão de gênero. Olha só:

Pausa Dramática – Este é seu projeto solo à parte do grupo Cabezas Flutuantes. Por que você decidiu fazer isso agora? Era uma ideia que já tinha há algum tempo?
Siso – Produzo minhas coisas desde 2012 e venho trabalhando neste EP, “Terceiro Molar”, desde o fim do ano passado. Apesar de o Cabezas existir desde 2011, o convite pra que eu integrasse a banda veio agora, em fevereiro, quando o segundo disco do grupo já estava quase pronto. Foi uma confluência de acontecimentos. Esse trabalho solo não é um projeto secundário de alguém que vem de uma banda: é algo que venho cuidando, moldando e desenvolvendo desde antes.

– E por que partir pra essa levada eletropop com pegada retrô?

Sempre fui muito fã de música pop. Minhas primeiras memórias musicais, além das coisas que meus pais escutavam, é do pop que tocava no rádio. Logo me apaixonei por Depeche Mode, Michael Jackson, Madonna e toda aquela geração seguinte, do pop dos anos 1990. Depois fui me interessando por diversos outros tipos de música, mas essa ligação afetiva sempre esteve ali, presente.
siso terceiro molar
– Seu som parece muito com coisas bem atuais como Years & Years e Troye Sivan e sua voz lembra bastante artistas conceituados como Sam Smith e Ed Sheeran. Quais suas inspirações?

Escuto coisas bem diferentes umas das outras — se você pegar meus perfis de streaming, você vai ver pop radiofônico junto de jazz, de hip hop, música nigeriana, coco de roda, folk, pós-punk, poesia falada, coisas eletrônicas… Mas, entre os artistas que têm a ver com o que faço musicalmente, dá pra citar Anohni, David Bowie, St. Vincent, Blondie, Talking Heads, Mutantes e Karine Alexandrino, pra ficar só em poucos nomes.
– Você disse em entrevista que o pop é “descartável”. Mas muitos artistas conseguem fazer pop de qualidade e estão aí há décadas. Como você se vê fazendo também pop neste meio?
Quando digo “descartável” é pelo fato de muita gente partir da premissa de que o pop é um produto simplificado pra consumo de massa, que merece seus três minutos e meio de atenção e adeus. Pra mim, não é só isso. O pop é um dos campos de batalha do nosso tempo, onde as tensões sociais ficam claras e aquilo que não serve mais começa a ser derrubado — especialmente os preconceitos e as questões das relações humanas. É ferramenta de transformação. Acho fascinante. E é por esse motivo que vários artistas pop conseguem se manter relevantes por décadas. Gostaria de ser um desses artistas longevos também.
Siso_-foto1-Joao-Viegas

– Você tem formação musical? Como foi o início de seu trabalho com música?
Sempre gostei de cantar e comecei a estudar violão aos 8 anos. Aos 10 eu já estava em cima de um palco, acompanhando meu professor de música em shows como violonista e backing vocal — ele tinha um projeto autoral de MPB. Nessa época também comecei a compor. Fui desenvolvendo uma pegada autodidata e comecei a montar bandas com amigos. Tive coisas mais ligadas ao rock, em que eu era vocal e guitarra, fui baterista de uma banda punk, fiz umas coisas freak folk com uma amiga, estive em uns rolês meio puxados pra MPB e comecei a fazer produções eletrônicas na época da faculdade.

– Seu EP teve bastante divulgação em plataformas de streaming, como você vê essa nova forma de fazer e “vender” música?
Acho que o streaming é a melhor maneira de consumo de música que inventaram desde a revolução digital. Gosto muito do CD e do vinil, até por suas capas e encartes, mas, quando eram as únicas opções, nem sempre era fácil encontrar o que queria ouvir. Nos primórdios do MP3, já era possível achar coisas diferentes, mas uma música levava horas ou dias pra baixar e você ficava na expectativa. Com o streaming você tem catálogos gigantescos de todo tipo de música à sua disposição, na hora. É maravilhoso. Sem falar na horizontalização dos processos que vem rolando nos últimos 15 anos — é sensacional o fato de você não precisar de uma gravadora ou de uma puta grana de produção e marketing pra chegar até o outro. Dá pra fazer tudo em casa, com um custo bem baixo, e ir conectando com as pessoas pela web.

– O clipe de “Eclipse” questiona as amarras de gênero e os papéis impostos para cada sexo, por quê você optou por essa pegada?
Foi algo super natural, que partiu de uma criação coletiva. O clipe foi construído cena a cena, a partir das ideias que as pessoas tinham na hora e da direção da Suelen Pessoa. A música tem essa temática da autodescoberta e do quão é importante você se conhecer pra poder agir no mundo. Se você não partir desse ponto do autoconhecimento, pode ficar refém das prisões mentais que construímos a partir da aprovação dos outros, por sabe-se lá quanto tempo. É preciso honrar as nossas verdades íntimas, independente das expectativas.

– Como está sendo a repercussão do disco e quais os planos futuros?

A repercussão está ótima. O show de lançamento do EP será no dia 5 de agosto, na Associação Cecília, em São Paulo. Depois disso, quero levar o show pra todo lugar que for possível. Quero também lançar pelo menos um single até o fim do ano.

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