Por favor, parem de problematizar ‘Friends’

Nos últimos tempos, uma das séries mais amadas da TV americana ganhou nova força. Exibição na Netflix e a comemoração de 25 anos de estreia de Friends trouxeram a série de volta para a alegria de fãs antigos e para conquistar toda uma nova geração.

Mas, com o comeback veio também a problematização. A série foi acusada de ter piadas homofóbicas, sexistas e de se valer do sobrepeso de uma personagem para fazer graça.

Você deve se lembrar que até poucos anos atrás a Rede Globo tinha um programa humorístico que estereotipava o gay pra fazer rir e objetificava a mulher. Lembra dos Trapalhões? Ali tinha blackface, tinha homem se vestindo de mulher pra fazer rir e, claro, gays como alívio cômico e piadas homofóbicas. Qualquer filme feito antes de 2000 vai trazer alguns dos comportamentos hoje inaceitáveis. Ou até mesmo anteriores: O Diabo Veste Prada tem cenas com referências ao corpo feminino que hoje não seriam aceitas. E o filme é de 2006. Você vai deixar de assisti-lo por isso?

As normas sociais levam tempo para mudar. E nossa habilidade de reconhecer estas mudanças e sua necessidade levam mais tempo ainda. Vamos pensar em Friends.

A série que foi ao ar de 1994 a 2004 vem sendo criticada por alguns por conta de seu humor datado. Os episódios que mostram Monica gorda, por exemplo. Colocar Courteney Cox em uma roupa de gorda para fazer rir pode ser muitas coisas: piada preguiçosa e ofensiva, com certeza. Ter uma atriz mulher cis interpretando uma mulher transgênero, outro exemplo, ou a insegurança com relação à própria masculinidade de Chandler. Não seria aceito hoje.

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Mas Friends não foi feito hoje. Ela começou há um quarto de século e terminou 15 anos atrás. A cultura pop é um reflexo de sua sociedade. É absurdo analisar Friends (ou outras produções do passado) com o olhar atual. Mesmo Will & Grace em suas primeiras temporadas seria ofensivo hoje em dia.

Acima das acusações, Friends foi uma série inovadora em muitos aspectos. Mostrou um casamento entre duas mulheres tratado como coisa normal em 1996. Abordou adoção por casal gay, barriga de aluguel para o próprio irmão e até mãe solteira que cria filha sozinha. Isso antes dos anos 2000.

Se olhados pelos olhos de hoje, filmes como Priscilla A Rainha do Deserto e Para Wong Foo não teriam visto a luz do dia como os conhecemos, pois traziam homens heterossexuais interpretando drag queens. Ou as performances de Tom Hanks, Jake Gylenhaal, Charlize Theron e Heath Ledger como personagens gays, que foram indicadas e vencedoras de Oscars. Isso pra falar de alguns somente.

As regras mudam, a cultura e o comportamento mudam. E isso é ótimo, é evolução. Mas querer ver o passado com os olhos do presente é nada menos que absurdo. Insistir que Friends é ofensivo ou mais ofensivo que qualquer outro produto cultural do passado, além de inútil é um exercício de estupidez. Se for para problematizar, use o programa como um exemplo de como evoluímos. E se for para se incomodar com preconceitos, você não precisa olhar pra trás. Tem muita coisa hoje em dia sendo feita pra você lutar. Dentro e fora das telas.

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