Como estamos vivendo com o compartilhamento de imagens?

A Revista Época desta semana (edição de 05/03) traz uma ótima reportagem sobre nossa relação com as imagens nesse tempo de smartphones onde se fotografa de tudo. E mostra como aplicativos e sites como Tumblr, Instagram e Pinterest estão interferindo nesta relação. 

Aplicativos como o Tumblr, o Instagram e o novo Pinterest estão mudando nossa relação com as imagens

RAFAEL BARIFOUSE
Olhem só o que eu vi agora (Foto: Shutterstock)

Alex Castro, de 38 anos, ganha a vida escrevendo. É autor de um livro e de um blog sobre racismo, edita um site e traduz obras literárias em inglês. Mas foi com poucas palavras e muitas imagens que obteve um sucesso sem precedentes. No blog Classe Média Sofre, Castro publica imagens de computador que mostram reclamações feitas em redes sociais e as complementa com um comentário espirituoso, para ressaltar o absurdo do que foi dito. “A pessoa ignora mendigos na rua e diz que a vida acabou quando a TV saiu do ar”, diz Castro. “A gente vê, ri e compartilha.” Há um ano no ar, o Classe Média Sofre recebe 4 mil visitas por dia. O Classe Média Sofre faz parte do Tumblr, a rede de blogs que mais se popularizou no último ano. Entre janeiro de 2011 e janeiro de 2012, seu número de usuários passou de 21,9 milhões mensais para 54,8 milhões. Esse crescimento chamou a atenção de Barack Obama, que incluiu o Tumblr em sua estratégia digital de reeleição à Presidência dos Estados Unidos. No Brasil, o Tumblr cresceu ainda mais. Em 2011, sua audiência se multiplicou por seis. Hoje, 6 milhões de brasileiros usam o site, a segunda maior comunidade atrás apenas dos americanos.

COMUNICAÇÃO GRÁFICA A cantora Tulipa colecionava recordações em seus murais de fotos. Agora, publica instantâneos de seu cotidiano para amigos e fãs no programa Instagram  (Foto: Felipe Redondo/ÉPOCA)COMUNICAÇÃO GRÁFICA
A cantora Tulipa colecionava recordações em seus murais de fotos. Agora, publica instantâneos de seu cotidiano para amigos e fãs no programa Instagram (Foto: Felipe Redondo/ÉPOCA)

O Tumblr não está sozinho. Ele faz parte de uma nova leva de serviços on-line para fotos, vídeos e grafismos que está mudando nossa relação com as imagens. As fotos e os vídeos, que antes tinham funções de registro ou recordação pessoal, agora são a forma mais eficaz de contato e comunicação entre as pessoas. As imagens estão virando nosso veículo para aparecer, fazer amigos e manifestar sentimentos. Além do Tumblr, estão mudando nossa vida álbuns como o tradicional Flickr ou aplicativos como o Instagram, que popularizou a fotografia via internet. Agora, a última novidade é o crescimento acelerado do Pinterest, uma espécie de mural virtual.

“As pessoas querem o mínimo de esforço possível”, diz o consultor de mídias sociais Marcelo Trípoli. Ele trocou seu blog tradicional por um Tumblr. A rede é muito fácil de usar. Do cadastro ao blog pronto, não se leva mais de um minuto. Publicar é ainda mais simples. Basta escolher umas das sete opções (imagens, texto, links, citações, vídeos, áudios e chats) e inserir o que se deseja pôr no ar. “Escrever textos exige comprometimento. Com a foto, basta clicar e publicar”, diz a analista de mídia social Rebecca Lieb, do The Altimeter Group.
O americano David Karp criou o Tumblr há seis anos justamente por sua dificuldade em manter um blog. O mais longevo não passou de três meses. “Não sou escritor”, diz Karp a ÉPOCA. “Aquela caixa de texto em branco me travava. Decidi fazer algo compatível comigo.” Programador autodidata, Karp fez o site como um projeto paralelo. Aos 17 anos, já era um nome em ascensão. Fora diretor de tecnologia do site Urban Baby e tinha uma consultoria, a Davidville. O Tumblr atraiu 75 mil pessoas nas duas primeiras semanas. Em seis meses, investidores avaliaram o negócio em US$ 3 milhões – hoje, US$ 800 milhões. “O site fez sucesso porque é flexível e permite às pessoas se expressarem criativamente”, afirma. A principal forma é por imagens, que respondem por 40% dos posts. “Mesmo quem não consegue escrever é capaz de apontar a câmera e publicar. A barreira de entrada é baixa.”
IDENTIDADE VISUAL A publicitária Priscila guardava imagens interessantes em seu computador. Agora, com o Pinterest, compartilha seus gostos e um pouco de sua personalidade  (Foto: Felipe Redondo/ÉPOCA)IDENTIDADE VISUAL
A publicitária Priscila guardava imagens interessantes em seu computador. Agora, com o Pinterest, compartilha seus gostos e um pouco de sua personalidade (Foto: Felipe Redondo/ÉPOCA)
Na cerimônia do Oscar, Angelina Jolie virou um dos assuntos mais comentados ao aparecer em diversas fotos com uma das pernas à mostra, graças à generosa fenda de seu vestido. Foi o que bastou para que surgisse um Tumblr fazendo graça com a ocasião. Logo virou uma febre com centenas de contribuições de anônimos que se fotografaram na mesma pose da atriz. O Tumblr coleciona diversos casos assim. Humor é o tema mais popular dentre seus blogs, mas há diversos outros, sobre temas como grafite, arquitetura ou tatuagens. Uma vez na rede, até o mais exótico dos gostos encontra seus pares. Mariana Gogu, de 28 anos, sempre foi apaixonada por dedicatórias de livros e queria fazer um projeto com o tema. O seu Tumblr, o Eu Te Dedico, reúne diversas delas, encontradas em visitas a sebos, onde ela vasculha os livros com a câmera do celular a postos. Ela ainda recebe contribuições de fãs do site, com 5 mil visitas por dia. “Essas dedicatórias ajudam a contar histórias”, diz. “As pessoas falam delas com carinho. Ninguém se desfaz de um livro com uma dedicatória.”
Fenômenos como o Tumblr só são possíveis porque, para sair por aí fotografando, não precisamos mais carregar um estojo com uma câmera nem mandar revelar as fotos. No ano passado, 472 milhões de smartphones foram vendidos no mundo, 58% a mais do que em 2010. Com eles, se popularizou o acesso móvel à internet. Se, há três anos, um smartphone servia para e-mail, navegação e tirar fotos ruins, hoje são centrais multimídias com câmeras de alta resolução. O iPhone é um exemplo. O modelo atual bate fotos com definição de 8 megapixels, quase o dobro da geração anterior. O iPhone é hoje a câmera mais popular no site de compartilhamento de imagens Flickr. Os smartphones respondem hoje por quase um terço de todas as fotos digitais feitas no mundo.
“A sofisticação dos equipamentos mudou o comportamento das pessoas”, afirma Rodrigo Dienstmann, diretor da área de operadoras da Cisco. “Elas deixam de apenas ver conteúdo na internet e passam a publicar muito também.” Um sinal dessa nova era da imagem digital está no Facebook, a maior rede social do mundo com 845 milhões de usuários. Há nele cerca de 150 bilhões de fotos, o que faz dele o maior site de compartilhamento de imagens. Cerca de 250 milhões de novas imagens vão ao ar por dia, 3 mil por segundo. Ninguém capitalizou melhor essa mudança do que o Instagram, lançado no fim de 2010. O aplicativo permite fazer a foto, aplicar nela um efeito (que acentua cores ou dá um aspecto antigo, por exemplo) e publicar na internet. Até janeiro, os 18 milhões de usuários já tinham divulgado ao mundo 400 milhões de imagens.
mensagem - aplicativos (Foto: reprodução)
É possível ver como nossa relação com as imagens mudou rapidamente quando conversamos com fãs de fotografia, como a cantora Tulipa Ruiz, de 31 anos. Ela gostava de fazer murais de cortiça repletos de fotos, que divertiam os que visitavam sua casa. Hoje seus registros raramente são impressos. Ficam na internet, para todo mundo ver. A cantora instalou o Instagram assim que comprou seu iPhone há oito meses. Quem acompanha suas atualizações pode conferir instantâneos de seu dia a dia, lugares ou objetos que atraíram seu interesse. “O grande barato é publicar meu olhar sobre as coisas”, diz Tulipa.
Aí está a segunda – e mais relevante – mudança. Mais do que tecnológica, estamos vivendo uma transformação em nossos hábitos de vida. De uma foto no porta-retratos ou algumas dezenas em álbuns empoeirados, passamos a colocar bilhões no arquivo (quase) infinito da internet. A popularização desses serviços de compartilhamento faz com que a imagem não sirva apenas para relembrar pessoas e momentos especiais. Elas se converteram numa forma de comunicação que retrata o que gostamos e vivemos. “As fotos publicadas dizem muito sobre nós, como a roupa que usamos. As pessoas estão se vestindo com imagens”, diz Luli Radfahrer, professor da Universidade de São Paulo.
Atualmente, o aplicativo de compartilhamento de imagens que mais cresce é o Pinterest. Seus usuários criam murais virtuais onde colecionam imagens por temas. Basta instalar um botão no navegador e acioná-lo quando se encontra algo interessante. Num clique, a imagem vai para seu mural. Tal praticidade é o segredo do sucesso. O Pinterest chegou a 10 milhões de usuários em nove meses, em janeiro passado, e tornou-se o site que mais rápido atingiu essa marca na história. Na conta da publicitária paulista Priscila Kubo, há 26 murais, com 800 imagens de roupas de festa para bebês, pôsteres de suas bandas prediletas, artigos de festas de casamento, escritórios descolados. “Uso para me inspirar”, diz Priscila. Antes, ela guardava as imagens no computador. Depois, no Tumblr. Mudou-se para o Pinterest há um ano.
  •  

POUCAS PALAVRAS David Karp, o criador do site de imagens Tumblr. Ele tentou escrever vários blogs,  mas travava diante da página em branco  (Foto: Michael Lewis/Corbis Outline)POUCAS PALAVRAS
David Karp, o criador do site de imagens Tumblr. Ele tentou escrever vários blogs, mas travava diante da página em branco
(Foto: Michael Lewis/Corbis Outline)

Embora seja atraente, essa nova era dominada por imagens ainda é confusa. Nos últimos anos, desenvolvemos várias ferramentas para classificar e organizar nossos escritos. Quer encontrar algum texto na internet? É só digitar no Google. Perdeu algum e-mail? Basta procurar no campo de busca. Mas, com as fotos e os vídeos que você sobe compulsivamente nas redes sociais, não é assim. Tente encontrar a foto daquele dia, há dois anos, em que sua filha andou pela primeira vez de bicicleta. Por enquanto, é preciso descrever o conteúdo das imagens para que uma ferramenta de busca seja capaz de encontrá-la automaticamente. Mesmo o Google, com seu acervo de 11 bilhões de imagens, ainda depende desse recurso. Gigantes como Yahoo, Xerox, além do próprio Google, e empresas iniciantes estão tentando criar tecnologias que ignorem as palavras. Essas ferramentas seriam capazes de “ler” diretamente uma foto e reconhecer padrões de cores e formas para classificar animais, lugares e até identificar pessoas. Um programa de busca que possibilite o acesso aos bilhões de itens que já estão no ar é um dos maiores desafios dessa nova era da imagem digital. Quem conseguir resolvê-lo pode criar o próximo gigante multibilionário da internet. E nos munir com a mais poderosa ferramenta para desbravar o mundo.

Deixe um comentário

Acima ↑