Resenha do Blog: Ruby Sparks – A Namorada Perfeita

Calvin Weir-Fields é um desses personagens muito explorados pelo cinema. Uma vez um sucesso (no caso dele, foi autor de um romance aclamado por público e crítica), hoje ele se vê diante de uma página em branco questionando sua vida, seu talento, sem amigos, com um cachorro que se faz xixi como uma fêmea e sem conseguir escrever uma linha sequer. Antes que o filme descambe para a chatice, o clichê ou o pastelão a roteirista Zoe Kazan (também estrela do filme) e o diretor Jonathan Dayton tomam as rédeas da situação e mostram todo seu talento em criar uma história original, meiga e deliciosa.
É diante deste “branco” que aparentemente todo autor de sucesso passa que Calvin procura um terapeuta que lhe dá um precioso conselho: escreva uma página, somente a título de exercício, sobre a garota com a qual vem sonhando. E é aí que a coisa pega: o autor senta-se diante de sua máquina de escrever e conforme vai datilografando vai criando no papel a garota dos seus sonhos: Ruby Sparks. A ponto de não conseguir mais parar de escrever e ir muito além de uma só página. Pois eis que um belo dia ela está ali, em sua cozinha, exatamente como ele a criou e descreveu. Claro que Calvin vai achar que enlouqueceu de vez e precisará testar se ela está ali de verdade ou se é somente imaginação sua. O teste em francês, por exemplo, é hilário. Mas logo a coisa começa a degringolar, pois Calvin não é um rapaz exatamente fácil e, claro, pessoa perfeita não existe. E é ao tentar moldá-la às suas vontades que ele a estragará de vez.
É necessário que se destrinche ainda atores e personagens. O protagonista é interpretado por Paul Dano, que apareceu em papéis pequenos em filmes como o recente Looper, Sangue Negro ou Encontro Explosivo. No incomparável Pequena Miss Sunshine (do mesmo diretor deste Ruby Sparks) interpretou o adolescente que decide fazer voto de silêncio como forma de protesto. Aliás, o diretor Jonathan Dayton antes de arrebatar o mundo com seu conto independente sobre a menininha que quer vencer um concurso de beleza e sua família desajustadoramente normal, dirigiu alguns clipes de bandas como REM, Oasis e Smashing Pumpkins. O irmão do protagonista, Harry, vem na eficiência de sempre de Chris Messina (de Julie & Julia, Demônio ou Vicky Cristina Barcelona); Seu padrasto é interpretado por um inspiradíssimo Antonio Banderas em momento natureba; Na pele de sua mãe, uma iluminada Anette Benning que passa longe da amargurada personagem que lhe deu a indicação ao Oscar em Beleza Americana. E temos, claro, Ruby Sparks. Interpretada pela autora do roteiro Zoe Kazam – também vinda de papeis pequenos em filmes como Foi Apenas um Sonho, Eu Odeio o Dia dos Namorados ou Simplesmente Complicado – Ruby é candidata forte ao coração dos indiesde plantão e pode tomar o posto que Zooey Deschanell conquistou com semelhantes grandes olhos azuis e igual carisma.
É bem verdade que parte da originalidade do roteiro se perde em um final não exatamente inesperado, mas a leveza da história, o tom gracioso, a “humanidade” de Ruby, e a inteligência das falas de personagens reais, ainda que (ou por isso mesmo) problemáticos fazem deste filme uma grande pequena obra. Nada como Miss Sunshine, claro, mas ainda assim muito melhor que muitas comédias do cinema atual.

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