Não é nem um pouco fácil falar sobre Indomável Sonhadora. Surpreendente inclusão entre os indicados ao Oscar deste ano – por seu baixo orçamento e independência e não pela sua qualidade, diga-se – a história da pequena Hushpuppie é difícil e pesada.
Assim como para seus protagonistas, enfrentar a uma hora e meia do filme é uma provação também para o espectador. São tantos os elementos agoniantes (e diria até repulsivos) do roteiro que precisamos de verdade entrar naquela realidade tão diferente da nossa para embarcar na história.
Hushpuppie é uma menina negra de 6 anos que vive com o pai em uma região que não nos é esclarecida muito bem onde fica. Chamado pelos poucos habitantes de Banheira, o local é parte de um pedaço de terra alagado por uma represa. Poucas famílias moram ali, não há trabalho ou escola, sobrevivem pescando e criando animais para seu próprio alimento. E bebendo. Quase como numa comunidade alternativa. Sua mãe foi embora quando a menina nasceu e é com o pai e uma espécie de professora que ela aprende os ensinamentos da vida, como saber que a natureza é um grane ciclo onde se uma peça se desencaixa, todas podem cair e que todos os animais são feitos de carne e, portanto, são alimento.
Meio que sem uma história propriamente dita, a menina vai narrando (com belíssimas frases) sua vida ali até que, ao brigar com o pai, acredita que uma destas peças do universo se desencaixou e que, por sua culpa, tudo virá abaixo. Na verdade, por sua culpa ou não, eles vivem em uma área condenada, prestes a ser inundada em qualquer tempestade. Vivem à beira de um colapso e se recusam a ir para um abrigo do governo. Mas o colapso parece iminente.
Como numa espécie de O Rei Leão levado às últimas consequências, a vida da menina se integrará à da comunidade e à natureza a sua volta, a partir dos ensinamentos do pai, cuja doença parece fatal e cujo fim será inevitável. No meio daquela sujeira, desordem e de tanto comportamento repreensível (regras de higiene e de conduta são totalmente ignoradas), Hushpuppie ainda sonha em reencontrar sua mãe, o que acabará por render uma das cenas mais belas do filme.
Sim, seu final é previsível e maniqueísta (e talvez justamente por isso um tanto asséptico). Sim, talvez tenha sido exagerada sua indicação ao Oscar de melhor filme (ainda que digna de mérito). Se compararmos com Pequena Miss Sunshine – outro filme pequeno indicado alguns anos atrás – que arrebatou o mundo com carisma, Indomável Sonhadora só possui uma semelhança: a força de sua pequena protagonista. Não sem merecer, a pequena Quvenzhané Wallis recebe uma indicação ao Oscar de Melhor atriz e nos deixa boquiabertos tamanha é sua habilidade em mesclar-se àquele universo e tornar sua personagem parte daquele mundo e completamente crível, mais até que seu pai (Dwight Henry) que volta e meia carrega nas tintas.
Um filme difícil, de uma realidade distante de muita gente no cinema, que provavelmente sairá do Oscar sem nenhuma das estatuetas a que foi indicado (direção, filme, atriz e roteiro adaptado) dado o peso de seus concorrentes, mas ainda assim merecedor de todos os louros por chegar aonde chegou e pela coragem da história fundamentada num lugar e em personagens tão pouco carismáticos. Com exceção de Hushpuppie, é claro.

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