Em 2009 Neill Blomkamp chocou o mundo com Distrito 9. O filme não agradou todo mundo, mas era fantástico e, por isso mesmo, abocanhou quatro indicações ao Oscar, incluindo melhor filme. Em 2013 entregou Elysium (aquele “filme do Matt Damon com o Wagner Moura”), mais fraco e sem surpresas. Este ano o diretor volta a surpreender com Chappie, que deve, mais uma vez dividir opiniões.
Apesar de ser um diretor jovem e relativamente iniciante em Hollywood, o sulafricano Neill Blomkamp se mantém fiel a seus filmes e é fácil perceber que quando postos lado a lado, todos possuem elementos comuns entre si: o visual de um mundo sujo e cru, armas, a distorção de valores de bem e mal, o elemento estranho e, claro, Sharlto Copley. O ator está presente nos três filmes já citados e ainda caminha a pequenos passos no cinema, trabalhando hoje em Powers, a série de super-heróis produzida para Playstation.
Chappie se passa em Joanesburgo (assim como Distrito 9) no ano de 2016 e mostra uma sociedade monitorada e controlada por uma força policial feita de robôs. Controlados por uma central, os robôs apenas seguem ordens e são impossíveis de serem hackeados. A situação que inicialmente está sob controle logo sofrerá uma ação externa e descambará para o caos (outro elemento comum de todos os filmes). O engenheiro responsável pela criação da frota de robôs quer criar um modelo que seja pensante, que tenha emoções e aja por si mesmo. Para isso ele rouba um robô que seria descartado e instala nele o que seria o protótipo desta inteligência artificial. É assim que Chappie é criado: um robô que fala, pensa, sente e age. E que não passará da idade mental de uma criança de nove anos. Quando Chappie cai em mãos erradas e outro engenheiro descobre o roubo é que as coisas saem de vez do controle.
É bem verdade que muito de Chappie você já viu em inúmeros filmes. Vestígios de 2001, Wall-e, Blade Runner, Matrix, Robocop, Inteligência Artificial e O Homem Bicentenário pipocam no enredo, mas não é por isso que se trate de um filme ruim, muito pelo contrário. Chappie é uma fábula moderna sobre valores, sobre enxergar além das aparências para reconhecer quem é o vilão e quem é o mocinho. Tudo, felizmente, sem nenhum tom de lição de moral. O filme é engraçado, repleto de ação, efeitos espetaculares, texto inteligente e emoção.
Já deu pra perceber que esse mundo cru e sujo é essencial na filmografia de Blomkamp. Mesmo em Elysium que se passa em um planeta Terra devastado, o mundo é o mesmo que a Joanesburgo pobre de Distrito 9 e Chappie. Não existem maquiagens: é tudo assustadoramente real. Muros pichados, prédios em ruínas, favelas, armas, fogo, sujeira. Seja nos cenários ou nos personagens.
O robô Chappie é inteiramente digital e foi criado com captura de movimentos do ator Sharlto Copley, tendo também sua voz. O trabalho é impressionante e é muito provável que você saia do cinema esperando encontrar robôs como ele na rua. Além da performance brilhante de Copley, os outros integrantes do elenco só contribuem para a eficiência do filme: Dev Patel, Hugh Jackman, Sigourney Weaver e a dupla de rappers sulafricanos Ninja e Yolandi Visser. O roteiro é assinado por Blomkamp e Terri Tachel (esposa e parceira também no roteiro de Distrito 9).
A ação, a discussão homem-máquina e a emoção de Chappie fazem dele um ótimo filme, mesmo com alguns personagens que nos causam arrepios de repulsa. E mesmo com um inexplicável corte de cabelo com mullets de Hugh Jackman em pleno 2016…
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