Que o Brasil é um país onde o que vale é se dar bem, onde a maioria esmagadora da população é corrupta e/ou corruptível e quer sair ganhando, muitas vezes a qualquer custo, nós, brasileiros, já sabemos. O surpreendente é ver isso retratado com tanta frieza em nosso cinema. Sim, porque pobre no cinema brasileiro ou é vítima do sistema (e por causa disso é mau) ou é motivo de belos fotogramas. Salvo raras e memoráveis exceções, claro (como em Domésticas).
Em Família Vende Tudo o retrato é tão cru, tão cruel e tão real que chega a chocar. Alain Fresnot, diretor de Desmundo e Ed Mort, retrata uma família moradora de uma favela que vive de bicos e trabalhos não muito convencionais: vendem bugingangas do Paraguai nos sinaleiros e ruas de São Paulo. Quando uma carga deles é apreendida pela polícia na estrada e outra parte tomada pela fiscalização na rua, ficam sem saber bem o que fazer. Os pais (Lima Duarte e Vera Holtz, espetaculares) e os três filhos (Lindinha: Marisol Ribeiro, é obcecada pelo cantor de Xique-brega Ivan Carlos; Webster: Robson Nunes, é evangélico, mas está sempre nos trambiques dos pais; e o mais novo, com cerca de 8 anos, fuma e faz pequenos roubos para ajudar a sustentar a família) vão por em ação um plano que pretende ajudá-los a sair do buraco: fazer a filha engravidar do cantor para exigir pensão, numa ideia surgida em uma explanação da Bispa Marisa, Marisa Orth tirando sarro de si mesma em um culto religioso.
A partir daí os pais darão dicas a Lindinha de como engravidar de Ivan Carlos, um surpreendente Caco Ciocler numa mistura de Latino (que faz uma participação no filme) com Falcão. Luana Piovani é a esposa perua e estereotipada do cantor. Beatriz Segall também participa como apresentadora de um programa de auditório.
Não fossem alguns personagens excessivamente estereotipados e artificiais (como a empresária de Ivan e sua esposa) e algumas atuações muito fracas (como a de Lindinha e seu irmão mais novo – problema eterno em filmes rasileiros: boas crianças) o filme seria bem melhor. Alguns problemas de texto dificultam a situação também e quando o filme termia ficamos sem saber se gostamos ou não.
Mas assim como em Elvis e Madona, vale a intenção: um retrato diferente do que costuma ser mostrado, o que já é uma grande vantagem, numa trama inusitada que rende vários momentos engraçados e acabou rendendo cinco prêmios do Festival de Paulínia: ator (Caco Ciocler), atriz (Marisol Ribeiro), ator coadjuvante (Robson Nunes), trilha sonora e direção de arte.
Resenha do blog: Família Vende Tudo

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