O Mesmo Número de “Nuggets” No Prato – por Caio Locci

O texto abaixo é de autoria de Caio Locci e foi publicado no site PLC122. Estou postando-o aqui por ter me identificado muito, principalmente com a primeira parte, no que diz respeito à infância e ter recebido o mesmo tratamento de meus pais e amigos de então. Singelo e até mesmo emocionante, o texto traduz de forma bem clara um sentimento muito presente hoje em dia. Depois do texto posto o meu comentário que deixei no site original onde ele estava publicado

caiolocci

O Mesmo Número de “Nuggets” No Prato

Sou o primogênito, nascido em 1985 de parto normal, criado por um pai e uma mãe, ambos heterossexuais, assim como o meu irmão, um ano e meio mais novo. Fomos criados de forma igual. Minha mãe comprava roupas iguais para que não houvesse competição entre a gente. Já fomos inclusive confundidos com gêmeos. Se a gente bagunçava, levava bronca, e se isso não adiantasse, a gente apanhava. Já apanhei de cinta, levei beliscões, tapas…Tanto eu, quanto meu irmão.

Minha família nunca foi rica, mas comida nunca nos faltou. Brincava na rua, junto com tantas outras crianças, descalço, ralando joelho, arrancando a ponta do dedão, batendo a cabeça. Sobrevivi. Brincava com os poucos brinquedos que ganhava, mas que eram sempre tão bem cuidados que alguns, tenho até hoje. Brinquedos que me estimulavam a pensar. Brinquedos que juntavam as crianças da rua.
Tinha amigos brancos, negros, ricos, pobres, meninos e meninas. Tudo até aqui, foi igual pra mim e para o meu irmão. No entanto, havia brincadeiras que ele gostava mais e eu menos.
Mesmo jogando algumas vezes, nunca gostei de futebol, por exemplo. Não via diversão naquilo, entende? Preferia um jogo de tabuleiro, um jogo eletrônico, algo que eu pudesse usar mais a cabeça que o próprio corpo.
Sendo assim, acabei me aproximando mais das meninas, que tinham brincadeiras as quais eu me divertia muito mais. Foi então que eu comecei a ser diferenciado pelos meninos mais velhos. Pra mim, não tinha problema um menino gostar de coisas que – não sei quem inventou isso – eram de meninas e vice versa. Mas os mais velhos, que provavelmente passaram pelo mesmo, tentavam, de maneira um pouco agressiva, me mostrar que eu tinha que gostar das mesmas coisas que eles.
Afastei-me mais ainda dos meninos.
Entrei cedo na escola, um ano adiantado. Sempre frequentei escolas públicas. Na minha cidade ainda não tinha escola particular, e mesmo que tivesse, meus pais não podiam pagar.Fiz mais amigos, mais amigas. Os meninos eram chatos, me tratavam diferente, me chamavam de nomes que eu demorei a saber o que significavam.
Eu fui crescendo – não muito em tamanho, admito – e percebendo que alguns meninos eram bonitos. As meninas também, mas os meninos… Ah, eles tinham uma beleza diferente, que me chamava mais a atenção. Mas depois de tudo que ouvi e passei com os meninos mais velhos, me proibi de ter esses pensamentos e jamais permitiria que alguém soubesse disso.
Minha vida na escola foi legal, mas conturbada. Me diverti muito, mas também fui muito apontado, xingado, humilhado, simplesmente porque preferia as coisas de menina, às de menino. Fingi que gostava de menina, do jeito que as pessoas esperassem que eu gostasse. Fingi para as pessoas e pra mim mesmo. Foram 18 anos vivendo uma farsa.
Aos 18 anos pude beijar com o primeiro homem e ter certeza de que eles me atraíam muito mais que as mulheres.
É aqui que queria chegar: nada, e eu enfatizo, absolutamente nada do que meus pais fizeram pra mim, deixaram de fazer para o meu irmão. Sempre tivemos tudo igual, seja “o mesmo número de nuggets no prato”, as mesmas roupas e o idêntico amor de nossos pais.
Meu irmão gosta de futebol, tem namorada, gosta de mulher e ainda assim, respeita e ama o irmão homossexual que tem. Meu irmão me defende quando falam de mim, fazem piada ou me deixam triste. Meus pais tanto não nos diferenciam, que a namorada do meu irmão frequenta a casa deles com a mesma liberdade que o meu namorado também o faz.
Meus pais me dão a mesma liberdade em casa, que dão para o meu irmão. Não há diferenças entre nós em casa, somos uma família, cada um com sua personalidade, e respeitamos um ao outro, sem impor nossas vontades, ideias e caprichos. E isso se espelha fora de nossa casa, com outras pessoas que convivemos.
“Eu não escolhi” um dia começar a gostar de homens, assim como meu irmão “não escolheu gostar do sexo oposto”.
A única diferença é que, a heterossexualidade dele é aceita e imposta como normal pela sociedade.
Já a minha homossexualidade, não.
Meu comentário:
Gostei bastante do seu texto e em boa parte dele me identifiquei. Tirando os preconceitos na escola, passei por tudo o q você contou. Dos jogos de tabuleiro às amizades com mulheres, até no não ter crescido muito em tamanho… Talvez nao tenha sofrido tanto preconceito na escola porque passava cola para alguns dos alunos que faziam parte da turminha dos que faziam bullyng com os diferentes e estes impediam que os outros me maltratassem para nao perder as colas hehe.
Também fui um pouco mais tardio nas “descobertas”, mas hoje, com 31 anos, me sinto totalmente liberto e pronto para admitir o que sou e do que gosto sem ter que dar satisfação a ninguém. Também levo meu namorado à casa dos meus pais e recebo deles a mesma (ou talvez até maior) aprovação que minha irmã.
Parabéns pelo texto. Traduz muito bem o que muitos de nós passamos e sentimos.
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