Resenha do site #OscarEdition – Trapaça

americanhustleTrapaça não é um filme fácil de ser visto. A trama é complicada, o roteiro intrincado vai e volta no tempo, os personagens enganam a todos os tempo todo e falam como se não houvesse amanhã… até pelo menos uma hora de filme, você não tem certeza do que está acontecendo exatamente na tela. E talvez até mesmo depois do final não tenha essa certeza.

Nada disso quer dizer que o filme não seja bom. Nem que ele não seja ruim. É um filme complicado. E este é o máximo de definição que consigo chegar. A história do trapaceiro pego pela polícia e obrigado a trabalhar para um agente enlouquecido do FBI vai conseguir prender o espectador e se tornar interessante, sem dúvida, mas chegar até a parte onde isso acontece pode ser um martírio impossível para alguns. O filme tem 2h10 de duração e por, pelo menos 1h30 estamos confusos, olhando para a tela com um grande ponto de interrogação estampado na cara. Mas quem é esse? O que ele quer provar? Como é o golpe que eles dão? FBI? Prefeito? Máfia? Sim, é uma avalanche de informações que, junto com a verborragia desenfreada dos personagens nos deixa meio zonzos.

Mas talvez esta seja justamente a intenção e aí mesmo que esteja o mérito de Trapaça. Não deve ser à toa que ele se tornou queridinho da crítica norte americana, venceu três Globos de Ouro (melhor atriz de comédia ou musical, melhor atriz coadjuvante e melhor filme de comédia ou musical). Mas se tem algo que ele não é, é uma comédia. Esta categoria na premiação volta e meia causa controvérsias. Aqueles filmes que não se encaixam bem em nenhum gênero, mas que definitivamente não são um drama, vão parar ali. No site especializado em cinema IMDB, Trapaça é classificado como “crime”.

Mas ele é, sem dúvida alguma, um filme completo. É notável na tela os esforços de roteiro, direção, atuações, cenografia (toda construída em beges, marrons e tons terrosos), figurinos, trilha sonora, ambientação e fotografia para a construção do conjunto. Com outras quatro indicações ao Globo de Ouro além das três que ganhou, é uma das certezas do Oscar deste ano, junto com Gravidade e 12 Anos de Escravidão. A título de comparação, ele é o intermediário entre estes dois: é melhor que 12 Anos, mas não chega a ser a perfeição que é Gravidade.

Dirigido e roteirizado pelo novo boy-wonder de Hollywood e um dos preferidos dos críticos nos últimos anos (David O. Russel), Trapaça acima de tudo mostra a segurança e um ótimo trabalho de equipe. De 2010 pra cá, O. Russel lançou três filmes. Dois deles estiveram presentes (e ganhando prêmios) no Oscar e indicados na categoria principal, direção e roteiro: O Vencedor (2010) levou ator e atriz coadjuvante (Christian Bale e Melissa Leo) e teve mais cinco indicações; O Lado Bom da Vida (2012) deu o prêmio de melhor atriz para Jennifer Lawrence e concorreu em outras sete categorias. E Trapaça é certo em pelo menos cinco ou seis indicações neste ano, incluindo filme, atores, direção e roteiro. O que para um diretor relativamente novo não é nada mal.

Porém, Trapaça tem uma grande pedra no sapato em seu caminho para um Oscar de melhor filme de 2013 (assim como nos anos anteriores): um filme com cara de “feito para ganhar”. E tem muita premiação engolindo a fórmula pronta de 12 Anos de Escravidão. Neste sentido Trapaça além de ser um filme melhor, é inovador. Sim, sua história também mexe com os brios do orgulho americano: envolve corrupção, suborno e agiotagem desenfreada, só não é declaradamente um filme feito só pra isso. Mas não é a história o ponto forte do filme, afinal filmes de trapaceiros e de golpes existem por aí às pencas. O que torna o filme o que é e faz ele ter a força que tem são seus personagens. O quarteto principal (todos trabalhando pela segunda vez com o diretor) é aterrador e entrega performances de deixar o público boquiaberto. Christian Bale, que O. Russel deixou esquálido em O Vencedor, deixa de lado a boa forma de seu Batman e está gordo, careca, com uma barriga enorme e um temperamento de dar medo; Bradley Cooper aparece o tempo todo pronto a explodir como uma bomba relógio e a cena que põe bobs no cabelo está prontinha para virar clássica; Amy Adams se despe de qualquer resquício de princesinha Disney e é sensual, sedutora, com o corpo sempre à mostra e disposta a qualquer coisa pelo que quer; e Jennifer Lawrence está simplesmente tresloucada, só aparece em cena bêbada e não diz coisa com coisa.

Não é difícil de imaginar que com um grupo assim nem tudo saia dentro do planejado. E nem difícil imaginar que esta trama pode ser interessante e prender a atenção. Mas o verdadeiro problema de Trapaça é sua avalanche de informações em pouco tempo. E de informações complicadas, que demoraríamos para entender em uma explicação simples, pior ainda arremessadas rapidamente na tela por personagens surtados. Mas de forma alguma é um filme ruim. É difícil, isso é, mas é um dos melhores filmes dos últimos tempos, com toda certeza e sua presença nas premiações é merecida. Não fossem suas atuações espetaculares por trás de personagens fortes e direção firme, seria apenas mais um filme de trapaça, mas a história com toques disco, cabelos com bobs e óculos degradê mostra a que veio, principalmente ao nos deixar pensando sobre ela depois dos créditos finais. Afinal muitos filmes podem ter sua qualidade medida pelo tempo que matutamos a respeito depois do final. E esse mérito Trapaça tem. Nem que seja para tentar entendê-lo, você vai pensar algum tempo nele.

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