Resenha do site #OscarEdition – Álbum de Família

Album-de-Família-pôsterQuando Álbum de Família estreou em setembro no Festival Internacional de Toronto todos tiveram certeza de que seria presença garantida no Oscar. Os meses passaram, outros filmes estrearam e a coisa naufragou: o filme passou raspando, somente com indicações para suas atrizes. É uma pena, porque Álbum de Família merecia uma indicação também a melhor filme, roteiro e direção, pelo menos.

O roteiro de Tracy Letts, adaptado de uma peça de sua autoria, gira em torno de uma reunião de família motivada pelo sumiço do patriarca (Sam Shepard). Uma das filhas (Julianne Nicholson) avisa a irmã mais velha (Julia Roberts) que o pai desapareceu e a mãe (Meryl Streep), com câncer e viciada em remédios, precisa de ajuda. Por conta disso todos se reúnem na casa dos pais. Junte-se a eles a irmã mais nova com o namorado mais velho (Juliette Lewis e Dermot Mulroney), o marido e a filha da mais velha (Ewan McGregor e Abigail Breslin) e a família da irmã da matriarca (Margo Martindale, Chris Cooper e Bennedict Cumberbatch como o filho do casal). Ainda uma empregada com raízes indígenas (Misty Uphan). E estas são todas as pessoas que aparecem em cena.

Sim, trata-se de um elenco de peso. E os desdobramentos deste encontro serão intensos, emocionais, surpreendentes e ao mesmo tempo previsíveis. Não é difícil de imaginar que uma bomba relógio se prepara minuto a minuto. A tensão por vezes paira no ar e culmina num dos jantares mais surreais que você vai presenciar. O vício da mãe e o descontrole emocional são regados por toques de amargura transformada quase em vilania, que na verdade escondem uma tristeza profunda. E, a bem da verdade, este pode ser o maior mérito do filme: ele mostra pessoas reais, que não se resumem a serem simplesmente felizes ou tristes, boas ou más.

Ao expor seus atores praticamente sem maquiagem e despindo-se de vaidades (a ponto de Julia Roberts mostrar raízes e fios brancos no cabelo e rugas no rosto), o diretor John Wells os aproxima do público. Ninguém é somente vilão, nem somente mocinho. Da filha mais alienada à que está pouco a pouco se tornando espelho da mãe, todos são pessoas de carne e osso com suas idiossincrasias, medos, amarguras. Em maior ou menor nível. E não fosse a competência de um elenco e um texto afiado, isso não seria possível.

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Claro que os grandes destaques aqui são Meryl Streep e Julia Roberts (indicadas ao Oscar de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante, respectivamente), mas em momento algum deve-se deixar de prestar atenção no restante dos atores em cena: Juliette Lewis é o toque de luminosidade na casa escura, sua tolice disfarçada é na verdade uma máscara e um refúgio que a escondem das maldades da mãe; Margo Martingale é a irmã da matriarca que não está muito longe de envelhecer da mesma forma; Ewan McGregor contém sua raiva em suspiros e se anulando diante dos rompantes temperamentais da esposa (Roberts); Bennedict Cumberbatch é o jovem meio abobalhado e envergonhado, que não tem coragem de olhar ninguém nos olhos e se sente um perdedor. É fácil nos identificarmos com vários comportamentos no filme e torcer ou não por algum personagem. É mais fácil ainda perceber as raízes daqueles comportamentos e a luta de alguns deles para fugir do padrão da família. Às vezes tarde demais.

Mas todos eles perceberão que a situação pode chegar num ponto sem retorno. Às vezes da forma mais difícil e dolorosa. Enquanto aquela mãe definha a olhos vistos, se enchendo de remédios e usando um câncer na boca para “justificar” sua língua ferina, vai pisando e menosprezando a todos a sua volta, sem notar o mal que está fazendo, até que isso lhe atinge em cheio.

É triste, mas ao mesmo tempo sublime e redentor. Em alguns momentos deixa claro o tom de “peça filmada”, mas nunca desaponta. A escuridão da casa que simboliza a escuridão da mente da matriarca; o calor insuportável que está ali para nos lembrar que a situação é sufocante; a decoração da casa entulhada de quinquilharias que serve de metáfora para a mente da mãe, cheia de lembranças, ressentimentos e amarguras.

Álbum de Família é um filme que merecia mais visibilidade nas premiações. As chances de Streep e Roberts vencerem o Oscar são mínimas, por mais que ambas estejam perfeitas em seus papeis. Mas dá pra dizer que de vários dos indicados ao Oscar, ele seja o mais real, o que mais bate na verdade que carregamos dentro de nós mesmos e às vezes nos assusta.

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