Resenha do site #OscarEdition – Ela

her_poster_brazilÉ bem fácil de colocar Ela na mesma categoria de filmes como A Garota Ideal, (500) Dias Com Ela ou Ruby Sparks: todos eles são praticamente teses sobre a solidão disfarçados de comédias românticas. Com cara de romances impossíveis, todos estes filmes têm em comum a relação de um homem com um ideal projetado por ele mesmo. Também é igualmente fácil compará-lo a Inteligência Artificial, Frank e o Robô ou O Homem Bicentenário: todos possuem um elemento “robô” com inteligência e sentimentos suficientes para se relacionar com seus protagonistas e nos emocionar em diferentes níveis. Mas então qual o grande diferencial de Ela?

Talvez o mérito maior seja em si, o de mesclar os elementos mais sensíveis (e não sentimentalóides) de todos estes filmes em imagens lindamente fotografadas em tons pastéis. Talvez seja o delicioso espetáculo singelo que são as interpretações de seu trio de atores principais (Scarlett Johansson, Joaquim Phoenix e Amy Adams). Talvez seja sua trilha sonora simples e tocante. Talvez seja a grande mensagem sobre a solidão. Talvez seja a máscara de comédia romântica num filme que tinha tudo para ser triste (mesmo caso de A Garota Ideal). Talvez seja tudo isso junto. Ou talvez nada disso.

É difícil pensar o que é mais tocante no filme dirigido por Spike Jonze que este ano concorre a cinco estatuetas do Oscar: melhor filme, trilha sonora, música, design de produção e roteiro original, do próprio diretor. Desde seu início o filme não se prende a explicações: não sabemos em que ano se passa e em determinado ponto isso deixa de importar. As pessoas estão cada vez mais presas a seus equipamentos eletrônicos. Se movimentam o menos possível, emails são lidos pelo sistema operacional, cartas são escritas sem necessidade de teclado, video games são jogados sem necessidade de controle, e sistemas operacionais se tornaram inteligência artificial. É claro na tela que a relação pessoa a pessoa está sendo substituída e que aos poucos estamos nos relacionando apenas com computadores e afins. Então o momento em que a relação afetiva também será substituída por um aparelho não deve tardar.

Assim como em (500) Dias Com Ela ou Don Jon, o protagonista desta comédia romântica moderna é o homem. Um homem real, de carne e osso, com quem facilmente nos identificamos: inseguro devido a um relacionamento frustrado, carente, sensível e solitário. Quando a sensual Samantha chega com sua voz rouca e dizendo tudo o que ele precisa ouvir, não precisamos nem ser muito inteligentes para concluir o que vai acontecer. Podemos traçar outros paralelos com estes dois filmes em especial. Ou até mesmo ainda com A Garota Ideal ou Ruby Sparks, mas o fato é que o romance parece socialmente aceitável numa era de gadgets cada vez mais inteligentes, exclusivos e personalizados. Pode ser que não seja exatamente assim e no fim das contas nada substituirá o toque. Pode ser que não, que as relações humanas realmente sejam substituídas pelas relações homem-máquina. Isso só o tempo dirá.

O que Spike Jonze faz é nos presentear com um filme sincero, sensível e delicado. Uma fábula moderna que dificilmente será apreciada em todo seu merecimento. Mesmo sem aparecer no filme por um segundo sequer, a personagem de Johansson, o sistema operacional Samantha, consegue ser real e verdadeira. Mais do que muita gente de carne e osso. Utilizando-se somente de sua voz (sexy, sem dúvida), a atriz é a alma do filme. Em contraponto com o quieto e introvertido Theodore (Phoenix), ela é alegre, divertida, alto astral. Conseguimos visualizar o sorriso de Johansson tranquilamente em nossa mente enquanto o sistema operacional ri e brinca com o protagonista.

No fim das contas fica aquele sabor de “brincadeira de criança”, de “tarde no parque” (talvez pelas cores do filme): nos divertimos muito, adoramos o passeio, mas ficamos triste quando a realidade bate. Nem tudo é um mundo perfeito e às vezes somos obrigados a acordar para a realidade da vida. É triste, é duro, é real. Mas Ela mostra tudo com tanta delicadeza que parece um passeio com um algodão doce na mão de mãos dadas com quem mais gostamos.

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