A necessidade da pausa dramática

Passeando pela internet encontrei esta ótima crônica de Marleth Silva publicada na Gazeta do Povo de Curitiba em maio deste ano. Ela fala, claro, não deste site (I wish), mas da necessidade e da utilidade de uma pausa (dramática ou não) na vida pessoal e profissional.

Vamos lá, leia o texto e… passe a adotar a pausa dramática! (sim, também estou falando deste site…)

pausa

A fabulosa descoberta da pausa dramática

Quando descobriu a pausa dramática, sua vida deu uma guinada. Tudo começou com uma apresentação que fez na empresa, daquelas com Power-Point e canetinha de laser. Ele falava tão depressa, sem parar para respirar, que em 15 minutos concluiu a apresentação programada inicialmente para durar 45. Expressões de espanto na plateia. Já acabou? Ninguém captou a mensagem. O gerente de RH, pressuroso, providenciou um treinamento com um ator de teatro que fazia uns bicos na área. Era “coach de voz” – ou coisa que o valha.

Depois de ouvi-lo, o ator parou ao seu lado, expressão de cansaço no rosto, e em voz baixa e arrastada explicou: “Uma vez ouvi da Fernanda Montenegro que o importante não é como se fala, mas como se faz as pausas”.

Pausa… Silêncio… Que descoberta maravilhosa para um ansioso! Não há necessidade de falar o tempo todo. É possível pausar. Pequenas pausas imperceptíveis para o interlocutor, mas que permitem recuperar o fôlego e imprimem um ritmo menos neurótico às falas. Adotou as pausas e começou a ter prazer em falar em público.

Foi então que descobriu a pausa dramática. Era dela que a Fernanda Montenegro devia estar falando, daquela paradinha que o ator dá durante uma cena, deixando a plateia no suspense, sem saber se a fala acabou ou se algo grave será dito em seguida. No teatro, uma pausa dramática faz a audiência suspender a respiração: “Oh! Terá o ator esquecido o texto?” E aí ele recomeça com toda confiança. Que beleza, que efeito incrível os atores conseguem.

No filme Jogo de Cena, do Eduardo Coutinho, há uma cena em que a Fernanda Torres mostra que aprendeu algo com sua mãe. Ela fala seu texto em frente ao diretor. De repente, faz uma pausa prolongada, repleta de expressões faciais. O rosto meio de lado, o queixo baixo (encarar o interlocutor durante uma pausa faz parecer que você está provocando, chamando para a briga). Será que a Fernanda-filha não lembra o que tem que dizer? Aí ela avisa que vai parar, que está insegura sobre como está representando. A cena, riquíssima, foi aproveitada por Coutinho. Coisa de diretor genial. Para um amante das pausas dramáticas, é cena para ser revista muitas vezes. Naquele caso, a atriz usou a pausa para checar o que não estava dando certo na sua atuação e concluiu que era melhor parar de vez. Mas se quisesse nos enganar, enganaria. Por isso a pausa dramática é uma ferramenta maravilhosa.

Pausa dramática no texto escrito, isso existe? O rapaz tentou algumas vezes em mensagens para a namorada. Ou ela não notou ou entendeu errado. Não é culpa dela, ele concluiu. A pausa dramática não combina com as mídias digitais. Isso deve explicar porque tanta bobagem, tanta confusão e futilidade nas opiniões postadas. Nas mídias sociais há o fluxo contínuo de pensamento. Ou, posto de outra forma, nas mídias sociais há o fluxo contínuo de não pensamento. Que falta faz uma pausa no meio de todo aquele ruído.

Em sua busca pela pausa dramática perfeita, o herói dessa crônica se deparou com uma cena desconcertante no noticiário político da RAI. Silvio Berlusconi discursa para os membros de seu partido em um auditório lotado. Era novembro de 2013. Ele conta que um antigo parceiro político mudou de lado. Vai ficando tão perturbado que tem de parar de falar. A pausa de Silvio Berlusconi mais parece um ataque cardíaco. Seu médico, que estava na plateia, subiu ao palco para fazê-lo parar de vez. Então o rei do Bunga-Bunga retomou o controle e recomeçou a discursar como se nada tivesse acontecido. Foi ovacionado pela plateia. De novo, a dúvida: aquilo foi um recurso de oratória ou um sofrimento genuíno? Vindo do Berlusconi, podia ser qualquer coisa.

Por via das dúvidas, o nosso herói não usa muitas pausas dramáticas na sua vida pessoal. Rendeu-se à evidência, elas funcionam melhor no parlatório, no palco ou acompanhadas pelo Power-Point. Mas a convivência com ela inspirou-lhe longos silêncios, em que simplesmente não abre a boca, não opina e não participa de conversas que rolam no seu entorno. A descoberta da pausa dramática não o transformou em ator, como lá no fundo ele gostaria, mas o tornou menos bobo. Aleluia.

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