Resenha do site – Guardiões da Galáxia

guardioes da galaxiaProvavelmente os leitores deste texto não se lembram (ou até mesmo nem conhecem), mas na década de 1980 dois filmes de super-heróis se tornaram icônicos e são até hoje lembrados, nem que seja como símbolo do que há de ruim no cinema: Howard – O Super-Herói e Mestres do Universo. O primeiro, de 86, trazia como personagem principal um pato com superpoderes que aterrissava na Terra. Inspirado em HQ da Marvel Comics, o filme era recheado de humor politicamente incorreto. Já Mestres do Universo (de 1987) trazia Dolph Lundgreen como ninguém menos que He-Man, numa aventura cinematográfica constrangedora.

Mas por que estamos falando disso? Bom, seguindo uma lógica cinematográfica apenas, no ano seguinte, em 1988, o pequeno Peter Quill vê sua mãe morrer em uma cama de hospital e é abduzido por alienígenas para que, 26 anos depois surja na pele de Chriss Pratt como o protagonista de Guardiões da Galáxia, que estreia esta semana no Brasil. Mas… qual a relação entre os três filmes? Além da coincidência de linha temporal, somente o fato de que este novo irá se tornar para uma nova geração o que os dois anteriores são para a nossa. E a estranha conexão de Guardiões da Galáxia com a década de 1980 de uma forma geral.

Quando o prólogo termina e acompanhamos Quill (Pratt, que nunca teve um papel relevante no cinema e será o principal nome masculino do próximo Jurassic Park) em toda sua canastrice enquanto ouve num walkman (sim, um walkman) com fones de ouvido laranja uma música oitentista. Neste momento, créditos iniciais estão aparecendo e uma dúvida vai surgindo: John C. Reilly? Benicio del Toro? Djimon Hounsou? Glenn Close? Onde estes nomes estavam nos milhões de vídeos e fotos do filme que vêm sendo distribuídos online há meses? Esta pergunta será respondida ao longo do filme e então descobriremos porque os únicos atores de verdade estiveram escondidos das campanhas de divulgação (além do óbvio fato de não serem chamarizes de público).

O filme vai desenrolando e outros “seres” vão se unindo a Quill para formar o que vai ser os Guardiões da Galáxia em si: um guaxinim rabugento com voz de Bradley Cooper (e que pode muito bem ser primo do pato Howard); uma alienígena verde chamada Gamora, com a cara e as curvas de Zoe Saldana; um outro alienígena grandalhão azul com tatuagens vermelhas interpretado por Dave Bautista (e que guarda uma semelhança que vai além da cor com outro ser azul grandalhão de filme de super-heróis); e… uma árvore de QI diminuto que diz apenas uma frase o filme todo, com a voz (e provavelmente o QI também) de Vin Diesel. Aí está: estes cinco serão os heróis responsáveis por salvar o universo, em personagens que mal têm suas personalidades bem delineadas.

Com um visual exagerado e sobrecarregado (leve a Gotham City de Batman & Robin para o espaço e pronto), Guardiões da Galáxia se revela um filme infantil, para um público de uma média de 10 anos de idade. Suas piadas dignas de uma comédia de Adam Sandler constrangem frequentemente. Seus péssimos atores do grupinho principal (perceba como Glenn Close parece até mesmo constrangida em cena com os heróis), sua trama tola, sua resolução óbvia e sua ação inspirada em Michael Bay criam um filme pronto para ser um futuro clássico de Sessão da Tarde. Um filme B involuntário que deve agradar o público em geral.

Um exagero da proporção de Guardiões da Galáxia jamais será um fracasso de público (e sua sequência já está garantida para 2017 mesmo antes da estreia norte americana exemplifica isso muito bem), mas demonstra claramente a saturação de um gênero que vai acabar por engolir a si mesmo: o dos filmes de super-heróis. Ao misturar um humor pobre a um filme de ação sem consistência, o estúdio acaba por ofender um público que, mesmo que goste de um besteirol de vez em quando, tenha seus limites.

Adaptado de histórias em quadrinhos da Marvel que iniciaram em 1969, o filme traz a formação dos Guardiões que apareceu nas revistas em 2008. A essa altura das coisas, a Marvel já sabe muito bem que o público dos filmes inspirados em HQs não é exatamente o mesmo do público que consome as HQs em si. Até mesmo porque as revistas dos Guardiões mal foram lançadas no Brasil. Então não é mais possível argumentar que uma adaptação “é assim porque é fiel às revistas”. A linguagem de cinema é outra e o público também.

Mas, novamente, o público vai gostar e receber bem, e encher os bolsos da Marvel de milhões de dólares. E a gente sabe que a mistura efeitos+pouco roteiro costuma render bons frutos financeiros, vide Transformers e Avatar. Mas Guardiões da Galáxia não passa de um filme B anabolizado por investimentos estratosféricos e efeitos especiais de última geração. Aliás, ver o guaxinim digital talvez seja uma das poucas coisas boas do filme. Isso, a trilha sonora e as referências oitentistas que passam por todo o longa, culminando numa citação meio torta à Footloose, mas que o público alvo nascido depois dos anos 2000 nem vai perceber. Vai ser como levar seu filho ver uma animação: algumas piadas são somente para os pais mesmo.

ATENÇÃO SPOILERS:

Na cena pós-créditos (não exibida na sessão para imprensa), vemos o Colecionador (Benicio del Toro) nos escombros de Lugarnenhum bebendo algo em uma taça verde, quando o cachorro astronauta vem e lambe sua boca. “Como você deixa ele fazer isso? Que nojo!”. Alguém diz fora de cena e quando a câmera se desloca, mostra quem??? Howard! O Super-Pato!!

Uma matéria original de Flávio St Jayme

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