Resenha do site: Trash – A Esperança Vem do Lixo

trashSe houvesse no Brasil um prêmio como o Framboesa de Ouro, que premia os piores filmes do cinema americano, já teríamos aqui um fortíssimo candidato: Trash – A Esperança Vem do Lixo, o novo filme do diretor Stephen Daldry é de um absurdo descomunal e ofende a inteligência de qualquer ser vivo com mais de dois neurônios.

No Rio de Janeiro, José Angelo (Wagner Moura) foge da polícia em um condomínio claustrofóbico. Ao constatar que será pego, arremessa uma carteira em um caminhão de lixo. Em uma comunidade de catadores de lixo, Rafael (Rickson Tevez) encontra a carteira no lixão, que contém algum dinheiro, umas fotos e uma chave. Com o amigo Gardo (Eduardo Luis), decide investigar de quem era aquela carteira e os segredos que ela oculta. Enquanto isso, Frederico (Selton Mello), um policial corrupto e adepto da força bruta, promete a Santos (Stepan Necessian), um deputado conhecido, que irá recuperar o que ele perdeu. Nem precisa dizer que a carteira que Gardo e Rafael encontraram guarda o segredo que Santos tanto procura.

Toda a trama das pistas e dos segredos renderia uma aventura policial razoável, é bem verdade. Mas o filme tem tanto, mas tanto clichê, que fica difícil peneirar algo de bom. Clichês não são ruins no cinema, praticamente todo filme tem (12 Anos de Escravidão, o último vencedor do Oscar de melhor filme, por exemplo, era um clichê só), mas tudo tem limite. Em Trash é lugar-comum demais se atropelando em um único longa. Como uma espécie de Sherlock e Watson mirins suburbanos, Rafael e Gardo terão que reunir as pistas mais mirabolantes para desvendar o mistério.

As crianças são moradoras da favela e catam lixo pra sobreviver. Na comunidade pintada em Trash, todo mundo é bom, não existem ladrões ou bandidos. Estes, estão só no mundo dos ricos. É como uma fotografia de Sebastião Salgado, onde a classe mais pobre é essencialmente formada por pessoas boas enquanto a classe mais rica somente por pessoas más. Não que não exista, uma coisa ou outra, mas em todas as sociedades existem os bons e os ruins. Menos na favela de Trash. Ali todo mundo é bom, basicamente porque é pobre. Os vilões andam de carro e de terno.

Na favela, existem ainda outros dois personagens “importantes”: o padre Juilliard (Martin Sheen, de O Espetacular Homem-Aranha) e a professora Olivia (Rooney Mara, de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres). Sim, são dois atores norteamericanos. Por quê? Bom, deve ser pra justificar a co-produção. Não existe outra explicação para os dois não serem brasileiros ali dentro daquela comunidade pobre. Enquanto Sheen faz milagres (com o perdão do trocadilho) na pele de um padre que tem no álcool a fuga para aquela ‘dura realidade’, Mara estampa durante todo o filme uma cara de perdida que simplesmente não pode ser atuação. Nós aqui conseguimos realmente perceber que a atriz não tem a menor ideia do que está fazendo ali. Claro que falar de atuações em Trash é perda de tempo. Não há uma sequer que valha a pena um ingresso.

O mais difícil é entender como que as mãos de Stephen Daldry (que dirigiu As Horas, Tão Forte e Tão Perto, O Leitor Billy Elliot, filmes brilhantes) e de Richard Curtis (roteirista de outros filmes também brilhantes, como Quatro Casamentos & Um Funeral, Um Lugar Chamado Notting Hill, Simplesmente Amor ou Questão de Tempo) conseguiram assinar um filme tão ruim. Assistir a toda a filmografia de Adam Sandler no cinema não seria tão ofensivo para a inteligência do espectador.  Trash é uma tortura angustiante, não pelo tema, pela pobreza ou pela violência. Pela ínfima qualidade de seu produto final mesmo.

O filme, é preciso que se diga, é adaptado de um romance do inglês Andy Mulligan, que o escreveu tendo em mente Manila, capital das Filipinas, onde morava. No entanto, no livro o autor não especifica em que lugar a história se passa, então já que falava de pobreza extrema e corrupção na polícia e política, alguma mente brilhante concluiu que claro que deveria ser no Brasil.

Constrangedor do início ao fim, com mais clichês que humorístico de sábado a noite na TV, com péssimas atuações e abusando da inteligência de seu espectador, Trash é com certeza uma das piores produções dos últimos tempos no Brasil. Dado seu tom politicamente correto, no entanto, é muito provável que vá parar em festivais e premiações mundo afora, já que é cult ganhar dinheiro em cima da pobreza pintando-a com cores lindas e fotografia sépia. Mas não se engane, tem muitos outros filmes brasileiros que também fazem quase isso e não fazem seus neurônios se suicidarem durante a projeção.

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