Depois de assistir os cinco minutos iniciais de Um Santo Vizinho (St. Vincent) uma coisa fica clara: o protagonista não está lá para que você goste dele. Aos dez minutos de filme, a segunda coisa fica clara: quando a história acabar, você vai estar gostando dele. E você já percebeu como ela acaba.
Um Santo Vizinho está localizado em um limbo do cinema. Aquele onde ficam os filmes bons mas nem tanto. Aqueles filmes que você mal se lembra depois de sair do cinema ou de desligar a TV. Na história, Bill Murray é Vincent, um velho rabugento que vai se ver forçado a cuidar do filho da vizinha. Viu como você já matou o filme todo? Viu como você já viu essa história antes? Pois é. Esse é o maior problema de Um Santo Vizinho: ele lembra filmes demais e consegue passar longe de todos.Assim, de cara, já dá pra pensar em Um Grande Garoto, Up e Filomena. Os três infinitamente melhores. Até mesmo no cinema brasileiro já vimos este filme: O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias conta uma história muito parecida. Claro que a relação entre as duas pessoas de idades tão diferentes vai mudar e ser mais do que a inicial distância, não precisa ser exatamente um gênio pra chegar a esta conclusão.
O filme foi indicado ao Globo de Ouro de melhor filme em comédia ou musical e na categoria de melhor ator (Murray). Não é pra tanto. Despontando como um Pequena Miss Sunshine deste ano, o filme pequeno que quase ninguém viu parece ter agradado os jornalistas internacionais que votam no prêmio, mas está bem longe de ser um dos melhores filmes do ano. Tem seu valor, é claro. Pode servir como um bom modo de ensinar ao seu filho o respeito aos mais velhos, que por trás de uma rabugice pode haver uma pessoa doce e tudo isso. Mas estar entre os cinco melhores filmes é um pouco demais. Murray também não merece todo este crédito por seu trabalho. Seu Vincent vagueia entre o mala e o queridão e sua atuação é bem pouco diferente do que vem fazendo nos últimos tempos, com o conforto de quem tem décadas de carreira e de repente foi redescoberto por público e crítica. O estreante diretor e roteirista Theodore Melfi entrega um filme de fácil digestão, pronto para passar na TV no domingo a tarde e, por isso, nada memorável.
É preciso que se destaque, no entanto, a atuação de Naomi Watts. Sua personagem, uma dançarina de boate russa grávida, é inusitada e convincente, ainda que um pouquinho caricata. Depois de errar por vezes repetidas, Watts está ainda em outro queridinho do cinema deste ano: Birdman. A infeliz Melisa McCarthy completa o elenco adulto de Um Santo Vizinho, se segurando para não fazer as caretas de sempre na pele da contida Maggie, mãe do pequeno Oliver (Jaeden Lieberher) que ficará aos cuidados de Vincent.
Em suma, é um filme fácil sem maiores méritos. Que com certeza não merece o hype que está recebendo. Já que passamos boa parte deste texto comparando, é melhor ver todos os outros filmes aqui citados, ainda que novamente. São muito melhores, mais bem feitos e memoráveis. Um Santo Vizinho é, no fim das contas, um filme apenas mediano, que desperdiça seus bons atores (Murray e Watts) em uma história boba e ingênua, coberta de clichês e sentimentalismo. Não é ruim. Seus avós vão adorar.
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