Resenha do site #ignoradosOscar2015 – Grandes Olhos

grandes olhosMuita coisa pode ser dita sobre Walter Keane, menos que ele não era um artista. Afinal, mentir é uma arte. E esta ele dominava como ninguém. O “falso pintor” retratado ao lado da esposa Margareth Keane em Grandes Olhos é um exímio realizador da arte de mentir e capaz de levar isso às últimas consequências, chegando ao ponto de convencer a si mesmo das próprias mentiras.

A comédia-dramática ignorada pelos votantes do Oscar este ano recebeu três indicações ao Globo de Ouro dando o prêmio de melhor atriz em musical ou comédia para Amy Adams no papel de Margareth Keane. Christoph Waltz também recebeu indicação por sua interpretação de Walter e, é preciso que se diga, ambos estão magníficos. Waltz consegue finalmente se distanciar do vilão carrancudo que lhe rendeu um Oscar e que parecia ser seu único personagem, criando um homem carismático, com poder de dominar sua plateia com palavras e sorrisos, ainda que uma pessoa digna de ser odiada desde que surge em cena. Conseguimos ver toda a canalhice por trás da máscara que o mundo pareceu não ver na década de 1950.

Grandes Olhos conta a história real de Margareth e Walter Keane. Ela uma mulher divorciada que desenhava estranhas figuras com olhos grandes e tentava a vida como pintora. Mas o mundo era cruel com uma mulher divorciada e com uma filha a tiracolo na época e Margareth logo conhece Walter: um pintor de paisagens urbanas francesas que a conquista com promessas e sorrisos. Ele logo percebe que as figuras que a esposa pinta possuem um mercado bem maior que suas ruas floridas e, de repente, “se esquece” de corrigir alguém que acha que ele é o artista por trás das pinturas e a mentira ganha proporções épicas. Como trata-se de uma história real e conhecida, é desnecessário dizer que os quadros farão sucesso com o nome de Walter e a mentira durará décadas, até que Margareth tenha coragem de revelar a verdade ao mundo.

O “menos Tim Burton” dos filmes dirigidos por Tim Burton, Grandes Olhos não carrega nas cores e nos tons como de costume, não traz o conhecido universo fantástico do diretor e nem Johnny Depp no elenco. Ainda assim, trata-se de um filme bastante comercial e colorido, simpático até, ainda que às vezes triste. Margareth vai se anulando e vendo suas obras fazerem a fama do marido, sedento pelos holofotes, até o ponto em que não consegue mais aguentar. Se esconde do mundo e da filha, com medo que alguém descubra seu segredo e aos poucos vai virando apenas uma sombra do marido famoso, ainda que as pinturas saiam de suas mãos. Afinal é a mentira que os está sustentando.

Como uma piada interna, o filme brinca com a “arte que não é arte”, que se torna produto reproduzido, discurso perpetrado por muitos que pensam o mesmo das obras de Burton. A arte de Keane seria, na década de 1950, mais ou menos o que Romero Britto representa hoje: reproduzida em produtos como cadernos ou chinelos, os desenhos coloridos de Britto fizeram sua fama, são extremamente característicos e, ainda assim, execrados por muitos “entendedores”. Margareth Keane pintava suas figuras tristes de olhos grandes com paixão e foi graças ao talento para canalhice de Walter que elas ganharam o mundo em forma de calendários, pôsteres e cartões, ainda que tidas como ruins por críticos como John Canaday (Terence Stamp). Walter se vangloria tanto de sua ideia que chega a dizer que Andy Warhol o copiou ao transformar as pinturas em pôsteres.

Bons ou ruins, o fato é que os quadros vendiam como água quando popularizados e fizeram a fortuna do casal. A mentira de Walter era condenável, mas seu tino para os negócios, inegável. Ele podia ter desmentido enquanto havia tempo? Sim. Mas quem sabe se tivesse feito isso o casal não tivesse alcançado o sucesso que alcançou. Era uma época machista e mulheres “artistas” não eram bem vistas, assim como suas obras. Walter e Margareth formavam uma dupla invencível, ainda que sua mentira a tenha prejudicado. E Grandes Olhos deixa claro quem é a verdadeira heroína dessa história num ótimo filme que entretém e conta uma história sincera e real, ainda que recheada de mentiras.

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