Resenha do site – Cinquenta Tons de Cinza

cinquentatonsExistem ocasiões em que você se surpreende quando vai ao cinema. Pode acontecer do filme ser melhor do que você esperava, de você discordar do que te disseram e gostar de um filme que ninguém gostou. E pode acontecer o que acontece com Cinquenta Tons de Cinza.

A adaptação da primeira parte da trilogia literária de E.L. James atinge níveis inimagináveis de decepção. Quem conhece o livro (mesmo sem ter lido), sabe do que se trata: uma moça conhece um rapaz adepto de um sexo um pouco “incomum”, digamos. E os dois passam a ter uma relação cercada de jogos sexuais. É basicamente isso. Trechos picantes do livro ficaram de fora do filme que é quase comportado. Mas são muitos os defeitos do longa.

Uma breve apresentação dos personagens principais nos joga no que teoricamente seria o primeiro embate entre Anastasia Steele e Christian Grey (Dakota Johnson e Jamie Dornan). Fica claro ali que a intenção é criar, desde o primeiro olhar e close na boca de “Ana” uma tensão sexual quase palpável. Mas fica só na intenção. As trocas de olhares, os toques, as palavras… nada consegue soar verdadeiro, e Christian começa a parecer apenas um menino rico mimado. Depois da segunda ou terceira cena entre os dois, muitas mordidinhas no lábio por parte da moça, fica claro um dos maiores problemas do longa: não há a menor química entre o casal e a tal tensão sexual não existe. Parecem dois estranhos fazendo um jogo fictício de sedução em que nenhum deles acredita. Uns 30 minutos depois e finalmente a coisa vai para onde todos esperam: as tão comentadas cenas de sexo. O medo de que o filme descambe para a pornografia torna estas cenas quase plásticas, menos reais que numa novela das 9 e, até o final da projeção elas estarão se repetindo e gerando bocejos ao invés de outras reações esperadas da plateia.

Mesmo em se tratando, essencialmente, de um filme para mulheres, que não hesitariam em apreciar o corpo de Grey (até porque é o único talento que Jamie Dornan tem pra mostrar), vemos muitas e muitas vezes a nudez de Anastasia. Total, frontal, de vários ângulos. Do moço mesmo só o peitoral e uma ou duas vezes a parte de trás. Nudez frontal masculina ainda é tabu. Feminina não. Os equívocos do filme vão se acumulando, enquanto vemos um Christian Grey que ao invés de sedutor e misterioso soa como um adolescente de quem os pais retiraram o iPhone. Os diálogos do casal são risíveis e ultrapassam o absurdo. Isso misturado à falta de entrosamento, à tensão sexual inexistente e à inaptidão visível de Dornan tornam as duas horas de Cinquenta Tons de Cinza um verdadeiro martírio. O que poderia ser um filme até interessante vira uma história maçante de uma moça bobinha se deixando levar pelas intenções de um milionário excêntrico. O que era para ser um romance erótico excitante se torna um filme sonolento e broxante, tão sexy quanto um copo de leite morno. E resulta num grande candidato a pior filme do ano

Claro que muitas outras implicações poderiam ser levadas em conta. Em tempos de movimentos feministas defendendo direitos das mulheres, é de se espantar que um longa que as coloca fundamentalmente no papel de submissas, tendo que chamar o amante de Senhor, sendo amarradas, chicoteadas e tendo que assinar um contrato de consentimento (dado o perigo que alguns atos podem trazer) tenha esta popularidade. Como entender um filme escrito por uma mulher, dirigido por uma mulher e baseado em um livro escrito por uma mulher que seja o ápice do machismo? Anastasia não escolhe suas roupas, não escolhe onde vai dormir, é levada para onde Grey deseja. Ou seja, não é submissa apenas na cama (ou na mesa, na corda…), mas na vida.

É preciso que se lembre que os romances surgiram como uma fanfic de Crepúsculo. A autora já afirmou que foram os livros de vampiro que a inspiraram a escrever. E Cinquenta Tons traz outras semelhanças com a saga vampiresca adolescente: é essencialmente feminino, cria um conflito romântico inexistente (Sr. Grey “não lida com romance”), é considerado ruim pela crítica (tanto filme quanto livro) mas, mesmo assim, será um sucesso de bilheteria. Com recorde de ingressos de pré-venda batidos nos EUA, é óbvio que será um sucesso de bilheteria.

Independente do que se diga sobre o filme, seu público está garantido. E já que estamos comparando, Jamie Dornan faz Robert Pattinson parecer alguém que merece um Oscar de melhor ator. Talvez a culpa seja do material original. Talvez da inexperiência do casal de atores, da diretora e da roteirista. Talvez das inúmeras divergências com relação à adaptação que renderam discussões entre autora e roteirista. O fato é que Cinquenta Tons de Cinza supera qualquer expectativa do que esperar de um filme ruim. Mas é fato também que será um sucesso de público. Entenda como quiser.

9 comentários em “Resenha do site – Cinquenta Tons de Cinza

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  1. Não achei que o filme foi tão ruim assim. Eu acho que, para quem leu os livros, percebeu a essência deles ali. Eu concordo quanto a falta de tensão sexual e ao entrosamento porém acho radical demais que merecia prêmio de pior filme.
    Gostaria de entender o que você queria mais nas cenas de sexo? Se ficasse explícito você chamaria de vulgar.
    Como você acha que o filme deveria ter sido feito para ser mais consistente e interessante (tanto quanto a interpretação dos atores quanto a dramaturgia)?

    Você só sabe criticar mas quero ver como resolveria tudo isso.

    Obrigada.

    1. Oi Camila, obrigado por seu comentário.
      Então, o entrosamento de um casal em se tratando de um romance é essencial pro funcionamento do filme. Você mesma concordou que não existe isso entre os dois. O Jamie Dornan pode até ser um bom ator, mas provavelmente pela falta de preparo (já que ele entrou às pressas e o filme tbem foi feito às pressas) e por conta de uma direção fraca e de um texto ruim está péssimo, não convence em momento algum.
      Se a gente pensar em outros casais de filmes (comédias românticas como A Proposta ou suspenses eróticos como Mata-Me de Prazer) dá pra perceber que quando os dois se tocam a tensão sexual explode. Pode ser o caso de que o Grey seja mais “seco” mesmo, mas os olhares dele deveriam explicitar sexo e isso não acontece.
      Quanto às cenas de sexo, as do livro são muito mais picantes, quando no filmes parece apenas que quem sente prazer é ele, e mais em castigá-la do que sexualmente falando. Novamente, a nudez masculina ainda é tabu, então o que temos é somente a exploração do corpo dela. Vai dizer que você não queria ver um pouquinho mais do corpão do Dornan?
      Na minha opinião o que deixou o filme ruim foi o acúmulo de erros. Fui assistir com a melhor das intenções, mas me decepcionei bastante. Um elenco melhor, um texto melhor e uma diretora mais experiente teriam resolvido os problemas.
      Aconselho que assista Mata-me de Prazer. Não é um filme excelente, mas com certeza você sentirá a diferença nas cenas de sexo.
      Mais uma vez obrigado. Abs

      1. Gostei da sua crítica e por isso vim comentar. Não precisa agradecer.
        A Própria Dakota disse que tudo era muito técnico mas eu esperava um filme pior (por causa dos trailers) e achei que o resultado ficou bem interessante em comparação. Creio que com o tempo eles vão conseguir fazer algo melhor (é o que espero para 50 tons mais escuros).
        Quanto a esse filme, “Mata-me de prazer”, eu já assisti. Aliás, já assisti vários filmes eróticos pois gosto do assunto. Voltando ao filme. Esse filme ‘Mata-me de Prazer’ só deu certo porque o ator Joseph Fiennes é entregue, ele é um ótimo ator e realmente se entrega de corpo e alma em tudo que faz (não só nas cenas de sexo).

        Gostei da sua iniciativa de ir assistir o filme. Não sei se foi sozinho ou se já leu os livros mas eu achei legal da sua parte ir assistir a um filme que é mais voltado ao público feminino, digamos assim.

        Eles poderiam ter ido mais além mas estavam com medo. Digo do elenco, direção e produção em geral. Erika participou do processo mas não sei até que ponto interviu.

        Achei que o filme ficou um pouco fraco mas elegante. Sou atriz e, com certeza, sugeriria alguns estímulos para a construção das personagens e caso eu fosse incubida com o papel da Ana a coisa ia pegar fogo. Não faço nada pela metade.

        Gostei de discutir com você e recomendo ‘9 semanas e meia de amor’. Um filme antigaço, velho mas que realmente me prendeu. Acho que poderiam ter tido este como referência. Se você assistiu esse me fale o que achou. Vou procurar ‘A Proposta’ para assistir, nunca tinha me interessado mas depois do que disse me despertou.

        Abraços.

      2. Concordo com o que vc diz do filme ser elegante, isso ele é mesmo. Preciso rever 9 Semanas, faz muito tempo que vi pela última vez. Ah e sim, sou fã do Joseph Fiennes, realmente acho que ele se entrega.
        Abs e mais uma vez obrigado pela participação 😉

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