Dez anos de ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ e sua importância para o cinema

Ele foi o responsável por levar a temática gay abertamente para o maisntream de Hollywood. Nunca um filme com cenas de beijos e paixão arrebatadora entre duas pessoas havia chegado tão longe. O Segredo de Brokeback Mountain derrubou barreiras e mesmo tendo levado apenas três prêmios das oito indicações ao Oscar que concorreu (perdendo inclusive a de melhor filme, a que era favorito), é considerado por muitos o melhor e mais importante filme de 2005.

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Dez anos atrás muita coisa era diferente no cinema. Foi por causa dele que hoje temos uma abertura tão grande para atores, personagens e temáticas gays na tela grande. Não é errado dizer que filmes como Direito de Amar, Clube de Compras Dallas, Milk, O Amor É Estranho ou Minhas Mães e Meu Pai sequer teriam passado de ideias num papel.

O quase silencioso e revolucionário filme do diretor Ang Lee pode ser sentido não somente no modo como foi abraçado pelo público e pela crítica, mas também na forma como serviu para neutralizar uma visão antiga de romances entre pessoas do mesmo sexo no cinema. Se antes era retratado apenas como paixões passageiras ou roteiros envoltos em doenças contagiosas, a partir dali a abertura foi instantânea. Mesmo em suas cenas mais fortes, Brokeback Mountain arrebatava. De acordo com Jake Gyllenhaal, que interpretou um dos protagonistas (Jack Twist), o tom político da obra era algo que preocupava Heath Ledger (seu colega de cena), era um assunto sensível a ser tratado a sério: “Ele era extraordinariamente sério a respeito dos aspectos políticos acerca do filme. Muitas vezes as pessoas quiseram se divertir e tirar sarro e ele era veemente sobre permanecer sério, até o ponto em que se recusava a ouvir qualquer piada a respeito do filme.”.

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Se assistido hoje, dez anos depois, o encontro dos cowboys em um abraço e beijo fulminante para compensar os anos perdidos, ainda permanece um momento poderoso e modificador no cinema, mais do que nunca. Alguns de nós podemos muito bem ter conhecido um Ennis Del Mar de verdade, um homem preso em um mundo onde não se encaixa e se vendo sem esperanças de enxergar nenhuma alternativa. Ou, como Annie Proulx escreveu no conto em que o filme foi baseado, “Havia um certo vazio entre o que ele sabia e o que ele tentava acreditar, mas nada podia ser feito sobre isso, e se você não pode consertar você tem que aguentar.”. É a tragédia de Del Mar e, por extensão, a de Jack Twist também, que o impede de escolher entre a felicidade e o medo.

Muito já se falou sobre o subtexto homoerótico nos filmes de cowboy mas nenhuma história foi corajosa como Brokeback Mountain ao nos lembrar que por trás de todo o machismo do “velho oeste” americano, sempre houve homens como Ennis e Jack.

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Em uma entrevista, Proulx afirmou: “Claro que haviam e ainda existem gays no mundo dos cowboys e cavalos desde que a primeira vaca passou o inverno nas planícies, mas a grande ficção que evoluiu no século XIX e permanece até hoje é que todos os cavaleiros e cowboys são heterossexuais, fortes e destemidos, bravos e belos, tímidos mas preocupados, de poucas palavras, sempre de bom coração com órfãos, crianças e mulheres, etc. Tudo isso construiu um ideal irresistível de masculinidade que tinha e ainda tem valores políticos. Para muitos, a imagem do cowboy se tornou um forte símbolo do homem americano. Foi esse confronto com a inverdade que a história pretendia mostrar através do olhar de dois personagens vivendo num mundo real de homofobia.”.

Embora o filme tenha sido bem recebido e bem recompensado (ele rendeu mais de $117 milhões de dólares em todo o mundo e outros $44 milhões em venda de DVD), também aconteceram seus percalços. Um cinema de Salt Lake City se recusou a exibi-lo e ele foi banido na China. Mas um dos feitos mais notáveis de Brokeback Mountain foi o fato dele ter sido lançado justamente num momento em que as atitudes estavam mudando, e o público mainstream estava pronto para ver dois homens juntos. Particularmente quando estes dois homens eram Jake Gyllenhaal e Heath Ledger. Ver Ledger habitar os dilemas de Ennis, um retrato de dor e ódio reprimidos, é duplamente destruidor hoje ao nos lembrar de seu talento gigante que apenas começava a aparecer.633ff-brokeback

É impossível hoje imaginar outro ator interpretando o personagem. Antes do filme, a ideia de um grande ator heterossexual interpretando um homem gay era praticamente impossível. Hoje, graças ao filme, podemos ver nomes como Matt Damon, Michael Douglas, Mark Ruffallo, John Lithgow, Alffred Molina, Julianne Moore, Cate Blanchet, Lilly Tomlin, Matthew MaConaughey, James Franco e tantos outros interpretarem personagens gays sem problema algum. Assim como atores assumidamente gays ou bissexuais interpretando papeis se tornando icônicos no cinema, como Ian McKellen, Ellen Page e Zachary Quinto.

Atores fizeram testes para Brokeback Mountain porque Ang Lee era um grande nome, mas todos hesitavam. “Durante as entrevistas, eu tinha uma sensação de que muitos estavam desconfortáveis, com medo”, relembrou Lee. Na época, Hollywood não era muito diferente de Wyoming (onde se passa o filme): um lugar onde a homossexualidade existia mas era raramente admitida e, se descoberta, inevitavelmente punida. Isso mudou, e continua mudando, mas histórias como a de Ennnis e Jack mantêm seu potencial transformador, já que vergonha, medo e preconceito não sumiram ainda. E também porque a metáfora de Brokeback Mountain – de sonhos destruídos e vidas não vividas por medo – é algo em que qualquer pessoa que tenha um coração pode se identificar.

Adaptado e traduzido da OUT Magazine

 

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