Resenha do site: O Lar das Crianças Peculiares

poster-peregrineUm diretor cultuado. Um livro best-seller. Um tema atemporal. Uma mistura que, de tanto elemento positivo poderia muito bem desandar e dar errado.

Tim Burton possui uma filmografia quase autoral. Seus filmes são característicos e, além de Johnny Depp e Helena Boham Carter, possuem diversos elementos em comum: o visual ao mesmo tempo gótico e colorido, o humor negro, o exagero. É assim desde Beetlejuice: Os Fantasmas se Divertem (1988) e Batman (1989), suas primeiras produções “comerciais”, e continuou assim com Ed Wood, Marte Ataca!, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, A Fantástica Fábrica de Chocolate, A Noiva Cadáver e tantos outros. Foi somente em 2014 que sua mão ficou um pouco mais leve, com o ótimo Grandes Olhos. E a sutileza e o exagero andam lado a lado desta vez.

O Orfanato da Srta Peregrine Para Crianças Peculiares é o romance de estreia de Ransom Riggs. Lançado no Brasil pela editora Leya, é a primeira parte de uma trilogia e um dos livros mais vendidos do momento (muito por conta do buzz em torno do filme, é verdade).

Então junte Burton e o livro e você tem a experiência de se assistir a O Lar das Crianças Peculiares: um filme que divide sua vontade de ser infantil com a vontade de ser “Tim Burton” e consegue equilibrar essas duas peculiaridades (sem o perdão do trocadilho) de forma quase brilhante.

Na história (do filme) o adolescente Jacob (Asa Butterfield) descobre uma “fenda no tempo” onde crianças com habilidades especiais se mantêm para ficarem seguras. Logo Jacob vai descobrir que ele também é um peculiar com habilidades especiais e, com a ajuda destes novos amigos, incluindo a diretora Srta Peregrine (Eva Green) e a garota mais leve que o ar Emma (Ella Purnell) irá enfrentar perigos que antes desconhecia para salvar a sua vida e a de todos.

Mais uma obra inspirada no livro que uma adaptação propriamente dita, a versão cinematográfica parte do mesmo princípio da obra literária, mas toma rumos diferentes e cria um desfecho inteiramente original. Se no primeiro livro a história acaba em um gancho para a continuação e sem conclusão, o filme dá um jeito de fechar a aventura de Jacob (de forma diferente dos três livros) mas ainda assim (claro) deixar uma pontinha para gerar continuações.

Se você leu os livros, não espere ver em tela urxinins ou jumirafas, ou o cachorro falante de óculos e cachimbo Addison. Ou o assustador Shane e o visual espetacular e desolador da Segunda Guerra Mundial da segunda aventura. O Lar da Srta Peregrine deixa de ser fiel ao livro (com muitas liberdades) quando as crianças deixam a ilha e, daí pra frente toma um rumo só seu. Nas mudanças com relação à história escrita ainda estão mudanças de características dos personagens (Dr Golan agora é uma mulher; Emma agora é quem flutua, no livro ela controla o fogo e é Olive quem flutua, por exemplo) e inclusão de outros escritos somente para o filme ou dos livros posteriores.

Mas não se atenha às diferenças e semelhanças com o livro. Assim como fez em quase toda sua obra, Burton pegou a história e a transformou em uma obra “sua”. Sua mão está em quase todas as cenas, ainda que muitas vezes de forma dosada. Impossível não vê-lo na luta de bonecos em stop motion ou nos monstros assustadores e ao mesmo tempo hilários do final do filme. O próprio diretor revelou que optou por usar efeitos “mecânicos” ao invés de digitais. Eva Green afirmou que tem medo de altura e teve dificuldade de “virar um salto mortal presa por cabos” para gravar a cena em que se transforma no falcão peregrino.

Se as intrincadas fendas temporais com suas leis próprias podem parecer um pouco confusas, o elenco adulto do filme faz com que deixemos de pensar em complicações e nos sintamos crianças de novo. Judi Dench está divina em uma participação rápida, se divertindo como nós ao interpretar a Srta Avocet. Samuel L. Jackson mostra que como vilão de história infantil não deixa nada a desejar aos seus papeis adultos. Eva Green é luminosa, toda olhares e sorrisos.

Ao unir o universo assustador (ainda que quase infantil) do livro com seu toque pessoal, Burton cria em O Lar das Crianças Peculiares mais uma obra com sua assinatura, um filme para figurar na lista de seus melhores momentos, uma aventura engraçada e assustadora como só ele é capaz de fazer. Simplificar a história chamando-a de “X-Men para crianças” é menosprezar o poder da metáfora do diferente e do deslocado, utilizada sim pelos X-Men, mas também por muitos outros. E sempre atemporal: afinal quem de nós nunca se sentiu deslocado ou sofreu preconceito por ser diferente ou… peculiar?

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