#ComentáriosLiterários – Enterre Seus Mortos, de Ana Paula Maia

A obra de Ana Paula Maia vem construindo um pequeno Brasil distorcido que não deixa de reproduzir o grande Brasil (…)” – Folha de S. Paulo

Esta frase estampa a contra capa de Enterre Seus Mortos, livro da escritora e roteirista Ana Paula Maia que recebi da nossa parceria com a editora Companhia das Letras. E não poderia ser menos verdadeira.

Tão brasileiro quanto um sushi ou uma marguerita, Enterre Seus Mortos é uma espécie de “road movie” em forma de livro. Seu protagonista, Edgar Wilson, é taciturno e de poucas palavras. Assim como o cenário que descreve, Edgar e a obra em si são secos e áridos.

Passado em um lugar não identificado, o pequeno romance narra alguns dias da vida de Edgar e seu colega Tomás, um ex-padre excomungado, que trabalham como removedores de animais mortos das estradas para uma grande empresa que transforma os cadáveres em insumos. Sem julgamentos ou lições de moral, a história se constrói em cima dos dois personagens e, após uma introdução, se torna mais “movimentada” (se é que podemos usar esta palavra) depois que eles encontram um cadáver humano e não sabem o que fazer.

Sem humor, sem filosofias e de maneira lenta e quase bruta, a autora nos coloca na vida daqueles dois numa história que tem cenário e personagens típicos de um faroeste no deserto e que de brasileira mesmo, só tem a corrupção na polícia e a falta de estrutura dos órgãos públicos.

Muito mais um extrato de alguns dias da vida dos dois protagonistas que um romance em si, Enterre Seus Mortos entretém de maneira estranha. Ninguém ali é carismático, ninguém ali é falador. As pessoas, e suas ações, são movidas por uma espécie de reação natural ao que lhes acontece e mesmo assim ficamos querendo saber o que vem a seguir. Edgar e Tomás não julgam nem um ao outro. Agem como se espera que devam agir e, assim como parece começar abruptamente, o livro também termina de supetão, com uma cena quase lírica.

Sim, Enterre Seus Mortos é, ao final de suas curtas páginas, uma história interessante de duas pessoas que passam quase que roboticamente pela vida. Que cumprem suas funções numa espécie de engrenagem de gente, onde cada um deve ter seu papel e cumpri-lo de maneira satisfatória, sem questionar ou esperar mais. Dois protagonistas tão diferentes entre si e ao mesmo tempo tão parecidos que constroem uma intimidade meio torta, uma amizade estranha, enquanto fazem seu trabalho. Afinal, alguém tem que recolher estes animais e, por que não Edgar e Tomás?

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