RPDR – Qual a diferença entre “ofender” e “fazer humor” às custas de outra pessoa?

Eu adoro RuPaul’s Drag Race. Desde quando conheci o programa por volta de 2016, assisto sem parar. Comecei vendo da sexta temporada e vi os All Stars, os UK, Canada e Holanda. Agora voltei e comecei desde a primeira e já estou na 5.

Adoro os desafios de moda, de criar roupa com materiais inusitados ou maquiar outras pessoas. E também gosto muito dos desafios musicais de coreografia.

Mas, desde que comecei a assistir, tem um desafio que me incomoda muito: o de gongar as outras drags.

Seja naquele momento da “biblioteca” ou no Roast, quando elas fazem uma espécie de stand up comedy, eu acho constrangedor. E RuPaul também não deveria apoiar.

O grande ponto destes desafios é: tem que ser engraçado sem ser ofensivo. Ok. Engraçado pra quem?

(sim, eu sei que o desafio é uma referência ao dozumnetário Paris is Burning, de 1990, que retrata a cena drag de Nova York nos anos 80. Mas Ru deveria saber mais do que ninguém que o mundo evolui e que algumas coisas que eram ok nos anos 80 hoje não são mais. Como é o caso da homofobia)

Nós gays sofremos com bullying e tiração de sarro desde que nos entendemos por gente. Eu cresci ouvindo que “não sabia brincar” porque não gostava quando outra pessoa fazia graça em cima de mim.

A própria RuPaul deve ter sido alvo de piadas desse tipo sendo gay, afeminada e negra. Então ela sabe como alguém se sente. “Ah mas você tem que aprender a superar e rir de você mesmo“. Você rir de você mesmo é bastante diferente de outra pessoa tirando sarro de seus defeitos para fazer outro rir. E superar é bastante relativo. A gente vê sempre as queens chorando por acontecimentos do passado. Quem disse que isso também não machuca e fica escondido no sorriso? (muitas vezes algumas nem escondem o constrangimento, na verdade) Alguém já parou pra pensar em como isso afeta a autoestima de cada queen?

Se é uma “tradição”, porque não quebrar como tantas outras que historicamente deixaram de ser válidas? Eu não acredito em absoluto que ninguém se ofenda com as “piadas”.

Every Reading Challenge (Compilation Part 1) | The Library is Open | RuPaul's  Drag Race - YouTube

Sempre fico imaginando como uma drag que é acima do peso, tem corpo fora do padrão, problema de pele, dente ou qualquer outro, vê aquele problema potencializado na TV. Um problema que ela, provavelmente, carregou a vida toda e foi obrigada a “aprender” a rir das piadas. Como a gente vê, muitas delas não superaram seus traumas.

Rir do outro nunca é engraçado, nunca é fazer humor. Uma pessoa magra tirando sarro de uma gorda é o mesmo que um hetero tirando sarro de um gay. É constrangedor.

Novamente, Ru e Michelle sempre dizem que a questão é a diferença entre fazer humor e ser ofensivo. Eu não vejo esta diferença. E claramente Ru ou Santino também não. Ele não gostou nem um pouco quando Alyssa tirou sarro dele na 5ª temporada. E todos vimos como Ru reagiu quando Utica tirou sarro dela na 13ª.

“Ah mas elas foram ofensivas”, você pode dizer. Por que? Não tiraram sarro da mesma forma que as outras? Qual a diferença?

Fazer humor às custas de tirar sarro de alguém nunca é engraçado pra quem é o alvo das piadas.

Nós, como gays, sabemos bem disso: rir às nossas custas não é divertido pra nós. Então por que Ru insiste neste desafio?

RuPaul's Drag Race: 15 of the filthiest reads in herstory

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