Por que Avatar fez bilhões em bilheteria mas tem zero impacto cultural?

Avatar é a maior bilheteria da história do cinema: fez quase 3 bilhões de dólares. Se olharmos apenas para os números, James Cameron é o rei absoluto. No entanto, se sairmos da planilha financeira e entrarmos no campo da relevância social, nos deparamos com um paradoxo: como um filme que quase todo o planeta assistiu pode ter deixado um rastro cultural praticamente invisível?

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Diz aí: você consegue citar uma fala de Avatar? Lembra da música tema? Se identifica com algum dos personagens? Já viu eventos, convenções, roupas e literatura inspirados nos filmes?

O segredo dessa desconexão reside na diferença entre espetáculo tecnológico e mitologia narrativa. 

Para entender por que Avatar fez bilhões na bilheteria mas não gerou uma legião de fãs fervorosos, precisamos compará-lo ao filme que inspirou o próprio Cameron a entrar no cinema: Star Wars.

James Cameron decidiu ser cineasta após ver Star Wars em 1977. Ele ficou impressionado, mas também frustrado porque George Lucas havia “chegado primeiro” ao tipo de ópera espacial que ele queria criar. 

Anos depois, Avatar foi sua tentativa de dar o troco. Contudo, faltou a Cameron o que Lucas dominou com maestria: a criação de personagens e um universo que realmente conectasse com o público.

Em Star Wars, os personagens transbordam personalidade. Temos o herói ingênuo (Luke), o mercenário arrogante e charmoso (Han Solo) e a princesa líder (Leia). São figuras com as quais o público quer se identificar e fantasia ser. 

Por outro lado, Avatar nos entrega Jake Sully, um protagonista genérico interpretado por um péssimo ator, e o Coronel Quaritch, um vilão militar padrão que nem de longe possui a presença icônica de um Darth Vader, e também interpretado por um péssimo ator.

Além disso, existe uma barreira psicológica no visual dos Na’vi. Por mais que a tecnologia de captura de movimento seja impecável, é difícil para o público se projetar em criaturas azuis de três metros de altura com feições felinas. 

O impacto emocional acaba ficando soterrado sob camadas de tinta digital, impedindo que os personagens se tornem ícones da cultura pop que estampam camisetas e inspiram fantasias décadas depois.

A falta de impacto cultural pode ser medida pelo que “sobrevive” fora da sala de cinema. 

Se eu pedir para você citar frases de Star Wars, você provavelmente dirá: “Que a Força esteja com você” ou “Eu sou seu pai”. Ou até mesmo citar uma fala de Yoda. Se eu pedir para você assobiar o tema de Indiana Jones ou a Marcha Imperial, você quase com certeza vai saber, se souber assobiar…

Agora, tente fazer o mesmo com Avatar. Embora tecnicamente excelente, a obra não possui “ganchos” que se prendam ao imaginário coletivo. 

As pessoas não citam Avatar em conversas cotidianas; elas apenas lembram da experiência visual que tiveram no cinema.

A razão pela qual Avatar arrecadou quase 3 bilhões de dólares não foi sua trama — que pra muita gente (e eu me incluo nessa) é só uma versão de Pocahontas ou Dança com Lobos no espaço, mas sim o fato de ser um “truque de mágica” tecnológico. 

Em 2009, o público não pagou para ver a jornada de Jake Sully; pagou para ver o que o cinema era capaz de fazer com o 3D imersivo. Avatar se tornou um evento obrigatório pra quem queria estar na conversa.

E foi o mesmo com a sequência: todos queriam ver as novidades de Cameron: foram ao cinema, saíram impressionados, indicaram e esqueceram do filme.

No entanto, o espetáculo visual tem prazo de validade. Uma vez que a “mágica” é revelada e se torna comum, o que resta é o roteiro. E, enquanto sequências como O Império Contra-Ataca elevaram o nível da narrativa com reviravoltas que chocaram o mundo, as sequências de Avatar trouxeram mais do mesmo, que já não era grande coisa.

O maior testamento da falta de impacto duradouro de Avatar está na sua única grande contribuição para a indústria: o ressurgimento do 3D. 

Após o sucesso de 2009, Hollywood entrou em uma febre frenética, convertendo todos os filmes para o formato em busca de ingressos mais caros.

O problema é que o 3D de Cameron era uma ferramenta artística, enquanto o do resto da indústria tornou-se um acessório barato e mal executado pra ganhar dinheiro, com raras exceções. 

Com o tempo, o público se cansou dos óculos desconfortáveis e das imagens escurecidas. Hoje, o 3D é uma tecnologia que o cinema moderno praticamente abandonou ou relegou ao esquecimento.

No fim das contas, Avatar é um rei que governa um reino vazio. Ele detém a coroa das bilheterias, mas não possui o coração do público. 

É uma obra que prova que você pode comprar a atenção do mundo inteiro por três horas, mas não pode comprar um lugar permanente na alma da cultura popular se não tiver uma história que as pessoas queiram contar e recontar para as próximas gerações.

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