Nas últimas semanas meu Instagram foi tomado por publicações sobre o último voo da nave, o show de despedida da Xuxa. Especialmente publicações de homens gays da minha idade.
Tanto video, foto e emoção, me deixaram pensando: por que todos esses homens se empolgaram tanto com esse show?
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Mas não precisei de muito tempo para responder a minha própria pergunta.
Esses homens, assim como eu, foram crianças nos anos 80. E quem viveu essa época sabe: ser um menino gay ali não era nada bom.
Éramos motivo de piada em casa, sofríamos bullying na escola, ganhávamos apelidos nada agradáveis, éramos ridicularizados na TV e, muito de nós, nos tornamos o menino bonzinho e quietinho. Uma carapaça de defesa pra evitar que a gente sofresse ainda mais.
Não podíamos ser nós mesmos. Nossa vontade era dançar e cantar com a Xuxa na TV, mas isso “não era coisa de homem”. Muitos de nós sofríamos sozinhos e em silêncio.
Já existem estudos sobre como nossa adolescência só aconteceu depois dos 20 anos. Enquanto os meninos hétero estavam se descobrindo, a gente ainda precisava esconder quem era. Somente depois de adultos e de algumas mudanças no mundo que pudemos nos permitir as mesmas descobertas.
E então chegamos aos 40, 45. Muitos de nós já bem resolvidos com relação à vida e aos relacionamentos. Mas ainda com aquela criança viada escondida, presa dentro de nós.
Ir a um show da Xuxa, mesmo depois de adulto, foi catártico. Foi a libertação dessa criança que, por décadas, não pode se expressar. Pra muitos, poder cantar arco-íris a plenos pulmões, dançar ilariê e ver a Xuxa de perto foi muito mais que ir a um show. Foi dizer praquela criança que ainda temos dentro de nós que está tudo bem, que você sobreviveu e chegou lá. Que ela sofreu sozinha mas que hoje tem toda uma comunidade junto com ela.
E mais ainda, que aquela que consideramos a Rainha dos Baixinhos, hoje levanta orgulhosa a bandeira que nos representa.
Entender isso, como terapeuta especialmente, me fez perceber a importância do significado desse show pra muitos de nós. O sentimento de que hoje pegamos aquela criança que sofria bullying no colo e que podemos fazer as pazes com ela e juntos, pintar um arco-íris de energia pra deixar o mundo cheio de alegria.
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