A nova série de Carrie, da Amazon, vale o play?

Se você acha que já viu tudo sobre Carrie White porque assistiu aos filmes sobre a personagem ou leu o livro, pense de novo. Com a assinatura impecável de Mike Flanagan, a minissérie que acabou de chegar na Amazon deixa de ser só mais uma refilmagem nostálgica para se tornar uma reinvenção visceral e profundamente humana de um dos mitos mais duradouros da cultura pop.

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Escrita e dirigida por Mike Flanagan, nome por trás de produções como A Maldição da Residência Hill, Missa da Meia-Noite, a série amplifica o bullying, que não se encerra quando o sinal toca e os alunos vão para casa. A perseguição agora é contínua, potencializada pelas redes sociais, câmeras de celular e viralizações cruéis que afetam não só a garota mas todos à sua volta, incluindo pais e professores.

Ao trazer Carrie para a era digital, a série transforma o linchamento virtual em uma extensão da dor da protagonista. O isolamento da garota ganha uma camada ainda mais claustrofóbica e cruel.

Carrie White sempre foi o símbolo máximo da marginalização social. Na visão de Flanagan, o fato de Carrie não se encaixar nos padrões estéticos, sociais e comportamentais impostos pelos seus colegas de escola é trabalhado com uma empatia dolorida. Ela é a garota invisível, vestida com roupas ultrapassadas, criada sob um fanatismo religioso asfixiante e desprovida de qualquer repertório de convivência social.

Em seus 8 episódios, a série tem mais tempo para desenvolver seus personagens, que agora são cheios de nuances. A tragédia de Carrie não vem do fato de ela ter poderes telecinéticos, mas sim de ela ser uma adolescente essencialmente boa, despreparada e desesperada por um pingo de aceitação e carinho em um mundo que prefere puni-la por ser quem é. E que vai se desintegrando aos poucos até o ponto em que explode.

No centro dessa narrativa estão as atuações incríveis de Summer H. Howell como Carrie, que consegue transitar entre a vulnerabilidade quase infantil de Carrie e a fúria incontrolável que se acumula dentro dela até o ponto de ebulição. Samantha Sloyan como a mãe opressora de Carrie, também impressiona. A atriz, colaboradora frequente de Flanagan, entrega uma atuação aterrorizante e trágica, que vai muito além do fanatismo religioso e por vezes desperta até simpatia: é uma mulher inteligente e capaz de tudo para proteger a filha. O elenco secundário — incluindo Matthew Lillard e Amber Midthunder — preenche a escola com nuances que evitam caricaturas simplistas de “bons e maus”.

Não importa se você já viu os filmes ou sabe como essa história acaba. Carrie no Prime Video se consolida como uma aula de como reinterpretar um clássico: honrando a essência da fonte, atualizando os temas para os dilemas contemporâneos e lembrando que o verdadeiro terror sempre nasce dentro de nós mesmos.

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