Resenha do blog – Ignorados Oscar edition: A Viagem

Quando os primeiros boatos sobre Cloud Atlas (no Brasil: A Viagem) começaram a surgir causaram furor: irmãos Washowski e Tom Tykwer por trás do roteiro e direção. Quando os nomes no elenco foram divulgados o barulho aumentou: Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Jim Broadbent, James D’Arcy, Ben Winshaw, Susan Sarandon, Jim Sturges e Hugo Weaving. Quando os primeiros teasers e trailers pipocaram na internet o filme já estava sendo considerado um novo clássico. Quando as primeiras listas de prévia do Oscar apareceram era tido como um dos favoritos.
O filme estreou e para surpresa geral foi um fracasso. O público achou comprido, a crítica achou arrastado e A Viagem não passou nem perto do Oscar, conseguindo no máximo uma indicação ao Globo de Ouro de melhor trilha sonora. O que deu errado? O filme é tão ruim assim?
Vou contrariar a opinião geral e responder: não. O filme não é ruim. Passa longe de estar digno de um Oscar de melhor filme, é verdade, mas merecia ao menos indicações como atores (Ben Winshaw está magnífico, assim como Jim Broadbent), maquiagem, edição, efeitos e trilha sonora. Não há motivo pro filme ter sido tão odiado.
As complicadas tramas que abraçam seis histórias contadas paralelamente e de forma não linear envolvem, prendem a atenção e são interessantíssimas por si só. Cada uma delas traz personagens carismáticos e descobrir os links entre elas é uma aventura a parte. Um verdadeiro épico envolvendo passado, presente e futuro. De compositores de sinfonias a robôs futuristas; de jornalistas investigativas a advogados abolicionistas; de tribos perdidas a velhinhos revoltados, todas as histórias causam algum tipo de emoção.
O que foi tido como uma das grandes vantagens do filme talvez tenha sido um de seus maiores problemas para o público: os mesmos atores se intercalam em diferentes papéis nas histórias. Como protagonistas ou fazendo meras pontas, cada um interpreta cerca de seis personagens durante o filme e é interessante às vezes tentar descobrir quem está por trás da pesada maquiagem de alguns. Considerado pela maioria longo e arrastado, ele flui fácil, mesmo com duas horas e 45 minutos de duração. Como uma espécie de Corra Lola, Corra anabolizado (do mesmo diretor Tom Tykwer), o filme mostra como nossos atos podem influenciar outros acontecimentos até em épocas diferentes.
Quatorze anos atrás, quando Andy e Lana (na época Larry) Washowski lançaram o primeiro Matrix já demonstravam seu gosto por filosofia barata. Nos filmes seguintes da trilogia isso se evidenciou e a falta de talento pra filósofos dos dois irmãos transformou a última parte num filme que beirava o risível. Essa vontade de filosofar (e essa mesma falta de talento pra isso) também está presente em V de Vingança (também roteirizado pelos dois), mais tarde no epiléptico Speed Racer e, claro, em A Viagem. Mas as frases de efeito copiadas de algum livro de autoajuda não atrapalham o filme.
Mesmo com o enfadonho nome brasileiro (não há como não achar que se trata de um filme espírita nos moldes da novela de mesmo nome ou não cantarolar a musica do grupo Roupa Nova quando se pensa no filme), e com sua longa duração o filme entretém, prende, não cansa e faz pensar. Não em suas mensagens ‘positivistas’, mas nas ligações entre uma história e outra e no efeito borboleta das ações e reações de cada um ali. Merece ser visto, talvez mais de uma vez, inclusive, nem que seja para vermos Hugo Weaving finalmente fazer outra cara além da que ele plastificou em si mesmo desde Matrix.
Um pequeno resumo da estrutura narrativa do filme: 
O legado vem do diário do personagem de Jim Sturgess, enquanto atravessa o oceano e tenta vencer uma misteriosa doença. Ele é lido pelo personagem de Ben Whishaw, um compositor clássico que tenta encontrar sua maior obra em 1932 enquanto se corresponde com seu amor secreto vivido por James D´arcy. E são exatamente essas cartas que acabam caindo nas mãos da jornalista vivida por Hale Berry, envolvida com uma perigosa matéria que quer desmascarar uma empresa interessada em um desastre nuclear durante o ano de 1973.
Seguindo agora pela época atual, a história dessa jornalista acaba se transformando no manuscrito de um livro que está sendo editado por Jim Broadbent, que acaba sendo internado em um asilo pelo próprio irmão e resolve escapar de lá com a ajuda de outros moradores. Já bem mais à frente, em 2144, essa mesma história se transformou em um filme e é o primeiro contato da personagem de Doona Bae com o mundo – ela é uma clone que serve comida em um fast food mas se torna a principal arma contra um estado opressor de Nova Seoul. Por fim, é o legado dela, quase como uma divindade, que move Tom Hanks nesse futuro desolado em busca de uma última chance de salvar a humanidade.

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