Resenha do blog: O Cavaleiro Solitário

É fácil entender porque o Cavaleiro Solitário está sendo um fracasso nas bilheterias americanas. Parece que a dupla Gore Verbinski e Jerry Bruckheimer (respectivamente diretor e produtor) está se esgotando e/ou se perdendo dentro de sua própria fórmula. Apesar de seus filmes anteriores virem dando certo no cinema – principalmente a série Piratas do Caribe –, O Cavaleiro Solitário parece demonstrar que, ou o público ou a própria dupla, se cansou.
Não me leve a mal, não se trata de um filme ruim. De modo algum. Bem feito, bem fotografado e novamente com Johnny Depp como um personagem secundário que acaba se tornando mais importante que o principal. Declaradamente a intenção era iniciar uma nova franquia, como a dos piratas que já está prestes a estrear sua quinta parte e com a sexta já anunciada. Porém, dado o fracasso inicial nos cinemas dos Estados Unidos, onde estreou em pleno feriado de 4 de julho e ficou atrás de Meu Malvado Favorito 2 (filme bem menos pretensioso), já não se sabe se o filme terá sequência(s) ou não.
Antes de se falar do roteiro, é bom que se esclareça uma coisa. Antes de ver o filme me perguntei várias vezes por que nenhum release ou matéria chamava o personagem de Zorro, já que pra mim e pra muita gente, era o filme do Zorro com o índio Tonto, só que com outro nome (como o filme do Superman se chamando Homem de Aço, sabe como?). Uma rápida pesquisa me respondeu: porque o Cavaleiro Solitário NÃO É o Zorro. Mas oi? Como assim? Sim, a confusão tem motivo: no Brasil a revista e o seriado do Cavaleiro Solitário (Lone Ranger, no original) chamaram-se Zorro. Pela dificuldade de traduzir ranger, um capataz/policial rural do Texas, optaram por nomear o herói com o mesmo pseudônimo de um que já existia que também usava máscara. O Cavaleiro Solitário é um advogado americano, John Reid, que tem como fiel companheiro o índio Tonto e seu cavalo Silver (“Aiô Silver!”, lembra?). Já o Zorro, o verdadeiro, é um espanhol de classe alta que vivia na California quando esta era colônia da Espanha: Don Diego de La Vega (já interpretado por Antonio Banderas no cinema), um herói de capa e espada que lutava pela defesa dos fracos e oprimidos com rápidos movimentos de esgrima, e dizem alguns, inspirou a criação do Batman. Resumindo: O Cavaleiro Solitário NÃO É o Zorro, mas recebeu esse nome (que é de outro personagem) antigamente no Brasil. (veja box abaixo)

Desfeita a confusão então é bom lembrar também que John Reid não tem aquela coisa de sedutor latino que Don Diego de La Vega tem, apesar de neste filme ter o belo rosto de Armie Hammer (de A Rede Social e J.Edgar). O índio, o cavalo, a máscara (sem capa e sem espada) aqui, partem de uma outra mitologia e tradição.
Este filme começa bem, com uma introdução interessante com um pequeno menino ouvindo uma história de um índio velho em uma espécie de museu. Este índio se apresenta como Tonto (Johnny Depp) e começa então a contar a história de como conheceu o mitológico “Cavaleiro Solitário”. A história que começa interessante e ágil, de repente cai num abismo de marasmo impressionante. Poucas vezes senti a sensação de que absolutamente nada relevante estava acontecendo na tela. Arrastada, sem ritmo, confusa e irrelevante em quase sua totalidade, a primeira hora do filme cansa e quase nos faz desistir do resto. O que acaba nos levando a um segundo problema, não só deste filme: o que aconteceu com as pessoas na sala de edição? Existe uma nova regra que filmes não podem ter menos de duas horas e meia de duração, não importa se isso é relevante pra história ou não? Se toda essa primeira metade fosse comprimida em no máximo meia hora o filme seria menor e melhor. Mas não, somos arrastados pela lenga lenga de Tonto e Reid (dupla que em cena não possui química alguma, aliás) contra o bandidão Butch Cavendish (William Fichtner, de Armageddon e Batman, O Cavaleiro das Trevas). Não é necessário tentar entender o roteiro, várias vezes confuso, que irá envolver índios, capitalismo, um rápido romance, uma cafetina de perna mecânica, a construção de uma rodovia e descoberta de prata.
Mas eis que, pouco mais de meia hora antes do filme acabar, surge uma sequência de tirar o fôlego que dura praticamente até os crédito finais. Resgatando o tema do seriado original, uma perseguição em trens envolvendo todos os personagens principais mostra o que o filme poderia ter sido: uma aventura das melhores. Rápida, empolgante, ágil, bem editada, com música perfeita, emocionante. Quase faz valer a pena o início borocoxô e nos faz sair do cinema satisfeitos com o filme, numa reviravolta interessante: passamos do sono à euforia pra nos contentarmos.
Com interpretações razoáveis (Johnny Depp se deixa fazer menos caretas desta vez), uma participação quase desnecessária de Helena Boham Carter (de O Clube da Luta e Sweeney Todd) como a citada cafetina e Tom Wilkinson (de O Exótico Hotel Marigold e Batman Begins) como o prefeito responsável pelo “progresso”, o filme em vários momentos lembra o execrado As Loucas Aventuras de James West, porém com menos humor e cometendo um erro que o faroeste de Will Smith não comete: o de querer ser levado a sério.
O que poderia ser um interessante retorno das aventuras de cowboy despretensiosas no melhor estilo “sessão da tarde”, morre ao se estender demais em sua introdução e em sua pretensão. Pode ser que o filme ganhe uma sequência que, sem precisar apresentar a dupla de personagens, seja mais ágil desde o começo. Pode ser que não passe do primeiro filme e tenhamos que nos contentar com uns 40 minutos de filme que vale a pena. Mas uma coisa é fato: se você está pensando em levar seu pai, que era fã do seriado da TV, para ver O Cavaleiro Solitário no cinema, se prepare para vê-lo dormir por mais ou menos uma hora, até que a ação comece, o filme termine e que ele saia da sala de cinema dizendo que achou o filme o máximo.
É, talvez esta seja a fórmula de Verbinski e Bruckheimer no fim das contas: os fins justificam os meios. Um final empolgante nos apaga da cabeça um começo morno. E a gente sai do cinema satisfeito. Vai entender.

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