Entrevistamos o criador da Leaf – a primeira marca de óculos de madeira do Brasil

Moda e ecologia estão começando a andar juntas. Já faz um tempo que tecidos passaram a ser ecoeficientes e outros materiais que agridem menos o meio ambiente estão sendo incorporados ao vestuário. Então não é de se espantar que a madeira entrasse nessa onda.

A Leaf é a primeira marca no Brasil a lançar óculos de madeira. Agregar o valor da ecologia a um produto de qualidade se tornou a fórmula de sucesso da empresa que este mês completou dois anos da inauguração da primeira loja no país. Eu, como consumidor tenho dois óculos da marca e recomento muito. Leves e confortáveis, os diferentes modelos dos óculos conseguem ser versáteis e se unir aos mais diversos estilos, além de dar aquele toque diferentão e atrair olhares curiosos. Após alguns problemas ‘técnicos’ no passado, a Leaf funciona a todo vapor e demonstra hoje uma preocupação crescente com seu consumidor. Hoje a Leaf produz óculos de sol, de grau, carteiras e capas para celular.

Nós do Pausa Dramática fizemos uma entrevista exclusiva com o criador da marca, Juan Carri, que nos contou um pouco sobre a ideia inicial da Leaf, o processo de criação e os planos da marca para sua expansão. Dá uma olhada:

óculos e skins - Créditos I Hate Flash

Pausa Dramática: De onde surgiu a ideia de óculos de madeira?
 

Juan Carri: Desde pequeno eu e meu irmão mexemos com madeira. Na minha casa, polidora, lixa, chave de fenda e outras ferramentas sempre foram brinquedos. Meu pai, um cirurgião com mãos de marceneiro (ou vice-versa), era apaixonado por trabalhos manuais e isso sempre me deixou à vontade com esse tipo de tarefa.

Pois bem, há quase três anos (o tempo voa!), vi uma referência gringa de óculos em madeira na internet e fiquei fascinado. Quis comprar os óculos, mas com frete e impostos a compra ficaria uma fortuna. Peguei uma tábua de madeira em casa e, usando um estilete qualquer, cortei pela primeira vez um óculos de madeira. Era pra ser só um óculos pra mim. Remendei as peças de um óculos de camelô e consegui um resultado que hoje acho tosquíssimo, mas que na época impressionou alguns amigos. Alguns amigos me pediram pra fazer um óculos no mesmo esquema e fui começando a entender o processo e gostar mais disso.
Abandonei meu emprego. Eu estudava Economia na USP de manhã e passava o resto do dia fazendo sozinho óculos de madeira para os amigos. Ia dormir toda noite com a mesma pergunta: como deixar melhor? 
Tentei as técnicas mais absurdas no processo: panela de pressão, microondas, dobradiças e outras tentativas igualmente bizarras. A Leaf não nasceu do conhecimento, mas da teimosia. Faltava estrutura, tempo e braço, mas sobrava vontade. Fomos melhorando e estamos onde estamos. A primeira loja (a primeira de óculos em madeira no Brasil) completa dois anos hoje (dia 26 de maio)!
Juan Carri, criador da Leaf
Juan Carri, criador da Leaf
 
– Quem faz a Leaf?
 
Parece exagero ou discurso, mas a Leaf é feita de amigos. Começou comigo apenas. Depois, um amigo de infância entrou no projeto e começou a me ajudar. Fomos crescendo e quando vimos já eramos 5 na primeira loja de 15m2.
Foi chegando gente e mudamos para uma casa maior, em Perdizes, onde funciona hoje em dia o Estúdio Leaf. Agora somos mais de 10 no Estúdio. A maioria é gente que eu conheço e confio muito antes da Leaf existir, o resto é gente que foi aparecendo no caminho, que gostou do projeto e entrou de cabeça nisso com a gente.
O clima aqui é o que faz tudo acontecer – os óculos, os outros produtos e os churrascos, jogos de futebol, jams de música e tudo mais.
 
Óculos de sol e skin para celular
Óculos de sol e skin para celular
 
– Qual o processo de trabalho? De onde vem esta madeira e como ela é tratada? E quanto tempo leva para um óculos ficar pronto?
 
O processo é longo e a maior parte dele é feito à mão. Um óculos demora mais ou menos 7 dias para ficar pronto.
A gente usa um processo diferente da maioria das fabricantes de óculos em madeira, com madeira laminada. Todas as madeiras utilizadas têm certificação do FSC e somos bastante preocupados com o uso de matéria-prima e consciência ambiental durante todo o processo.
 O que a gente tenta fazer é garantir que a maneira como isso é produzido seja a menos impactante possível em todas as partes do processo. Isso vai desde a escolha dos materiais que a gente utiliza (sempre certificados) e passa por métodos de produção corretos, reaproveitamento de matéria prima, ética com fornecedores e consumidores e contrapartidas que essa produção possa gerar para a sociedade. A gente já é bastante preocupado com isso, mas ainda dá pra fazer muito mais.
Outra coisa que costumamos refletir internamente é sobre os produtos que os nossos substituem. Afinal, ao comprar um óculos de madeira, a pessoa está deixando de comprar um de acetato, plástico ou de outros materiais com origens mais danosas à natureza e com um tempo de decomposição muito maior em comparação com a madeira. A gente busca fazer produtos de mínimo impacto, com o maior aproveitamento possível – as skins, por exemplo, são feitas com sobras das lâminas de madeira dos óculos.
Produção
 
– A produção ainda é somente sob encomenda?
 
Mais ou menos. Temos uma grade de produção baseada pensada para a média de pedidos que temos com cada um dos modelos. É muito mais próximo de um artesanato do que de uma fábrica – coisa que não pretendemos ser. Se você pede um óculos de grau, por exemplo, ele será feito especialmente para você. O mesmo acontece com alguns modelos mais específicos ou personalizados.
Isso além do Leaf Numerado. Todo mês, a gente lança um óculos novo, com apenas 9 peças inéditas, exclusivas e numeradas. Fazemos aqueles 9 e nunca mais. No outro mês mais 9 diferentes e assim em diante. O pessoal da produção fica maluco, mas é super divertido.
Beagle Brown almofada
 
– Como você vê a aceitação do público?
 
É ótima. A gente tenta não se ver como uma empresa tradicional, preocupada apenas com as vendas de óculos. Costumamos falar aqui que é um Negócio (com N maiúsculo) que se recusa a ser negócio. Acaba que as vendas, os números e tudo mais tem pouco protagonismo no nosso dia a dia.
A Leaf tem valores, coisas em que a acredita, assuntos aos quais se opõe, pessoas com quem se recusa a trabalhar, preocupação com sustentabilidade (que é muito mais falada dentro do Estúdio do que propagandeada fora), uma plataforma de diversidade, cicloativismo, esporte e música que a gente apoia do jeito que pode e que não pode. Ufa! Enfim, no dia a dia dá pra perceber que é um projeto maior. E acho que quem já veio no Estúdio ou acompanha a gente pelo Facebook acaba pegando um pouco desse espírito e curtindo. É muito gratificante.
Drop Brown
– A eco-eficiência é uma tendência mundial. Como você vê a mistura dela com a moda?
 
Acho que a mistura das duas coisas se dá no processo de produção e nos materiais que a gente opta por utilizar nele. A gente vai percebendo que é mais difícil fazer um processo de mínimo impacto, muitas vezes é mais caro utilizar materiais mais ambientalmente corretos, mas a empresa já nasceu com esse propósito, então somos coerentes com tudo isso.
É complicado. É muito mais difícil produzir algo feito à mão e de madeira. Mas o consumidor dá muito valor ao processo de produção diferenciado, o que acaba nos colocando em outra posição em termos de concorrência. O brasileiro vem consumindo de forma cada vez mais consciente e isso é ótimo (como empresa e também como cidadão). 
Outro lado que ajuda é a transparência de tudo que é feito no nosso Estúdio, que é aberto para visitas (alô, galera de São Paulo! Fica em Perdizes). Acho que quando os clientes entram em contato com um produto feito à mão de maneira sustentável, naturalmente isso desperta alguma nova percepção sobre o assunto. Além disso, a gente gosta de usar os nossos canais nas redes sociais e fazer parcerias para levantar bandeiras sobre temas que são importantes para nós e que muitas vezes não tem nada a ver com o nosso negócio – política, diversidade, cicloativismo, arte, cultura, sustentabilidade. São assuntos que estão sempre em discussão aqui no Estúdio e que acabam sendo refletidos nesses outros canais.

As carteiras mágicas produzidas pela Leaf
As carteiras mágicas produzidas pela Leaf
 
– Está nos planos da Leaf ter lojas físicas?
 
Está. Por enquanto temos a Mini Leaf, que é uma loja pequena, que funciona em uma galeria na Praça Benedito Calixto. Estamos testando uma nova Mini Leaf na Avenida Paulista e também fazemos vendas direto no Estúdio onde os óculos são produzidos (SP). Mas a ideia é ter lojas próprias, sim, tanto em SP quanto em outros estados – mas queremos fazer isso com calma e com a nossa cara. 
flavioleaf
Eu com um dos meus Leaf no sol frio de Curitiba

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