Resenha do site: Malévola

Malevola-poster-brA releitura de clássicos é a nova moda no cinema e na TV. De tentativas bem sucedidas às mais desastrosas, terror, suspense, animação, comédia… tudo está ganhando uma ‘nova roupagem’ que, teoricamente, serve para atingir um novo público. E claro que, sendo a Disney a detentora de muita coisa que vive em nosso subconsciente, é ela quem mais se arrisca: Alice, O Mágico de Oz e, principalmente, a série Once Upon a Time. Responsável por redimir vilões, transformar mocinhos em bandidos e criar laços familiares inimagináveis, o seriado é divertido, leve e tolo, e capaz de agradar a uma infinidade de tipos de público.

Geralmente a maior parte da graça dessas releituras está em descobrirmos fatos sobre personagens há muito conhecidos, em ver um outro lado da história e em ver atores veteranos se divertindo em seus papeis. Este último caso fica bem evidente no ótimo Oz: Mágico e Poderoso e no fraco Espelho Espelho Meu, onde James Franco e Julia Roberts se divertem descaradamente em seus papeis nos dois filmes respectivamente.

Branca de Neve foi revisitada nos catastróficos Branca de Neve e o Caçador e Espelho Espelho Meu; Alice foi revisitada em Alice no País das Maravilhas (onde o protagonista é o Chapeleiro maluco de Johnny Depp diante da cara de ostra de Mia Wasikowska); Chapeuzinho Vermelho em A Garota da Capa Vermelha; João e Maria no divertido e tolo João e Maria: Caçadores de Bruxas; O Mágico de Oz no desbunde visual que é Oz: Mágico e Poderoso. Todo mundo junto e misturado em Once Upon a Time. Uma nova versão de Cinderella vem aí. Então não é de se espantar que Aurora, a Bela Adormecida, acordasse e se misturasse ao grupo.

Malévola é um filme deslumbrante visualmente. Estreia na direção de Robert Stromberg, responsável pelos efeitos especiais de filmes como Alice, Avatar (pelos quais ganhou o Oscar na categoria), As Aventuras de Pi e Jogos Vorazes, o visual fantasioso da história não poderia estar em melhores mãos. Luzes, cores, trevas, bichinhos fofinhos e coloridos, fadas… tudo passeia lindamente pela tela em imagens de encher os olhos. Numa história que põe a vilã como protagonista, Elle Fanning (de Super 8) ilumina cada frame com sua beleza, sua graça e seu sorriso, no papel da saltitante Aurora. Mas o filme pertence a Jolie. Sua personagem alardeada há meses era esperada como uma volta triunfal da atriz às grandes produções. Muito esperada também pelos fãs da personagem, uma das vilãs mais clássicas da Disney. A expectativa era grande e era de se esperar que o filme as superasse.

Porém, assim como Malévola, o filme, a Malévola de Jolie é uma decepção sem tamanho. Novamente, num filme onde a bruxa é a protagonista, é inacreditável a falta de vontade com que a atriz dá vida à personagem. Calcada inteiramente na maquiagem (e nos chifres), Jolie se esquece de interpretar e passa o filme todo com a mesma expressão. Os momentos em que Jolie brilha em cena e nos ganha são os raros em que deixa transparecer a maldade de Malévola. Além de tudo a pobre coitada sofre de uma maldição ainda pior que a perpetrada a Aurora. É impensável que uma vilã tão temida e que há mais de 50 anos habita o imaginário popular se redima e termine o filme como uma heroína. É simplesmente inacreditável que toda aquela maldade seja descartada a ponto de um final, novamente, inacreditável estampar a tela enquanto o espectador olha incrédulo. ‘Não, o filme não pode acabar assim’, você pensa. Mas ele acaba. Para o espectador familiarizado com Once Upon a Time, uma redenção não é exatamente uma novidade, mas tentar reproduzir algo que levou três temporadas de um seriado extremamente bem contextualizado num filme de menos de duas horas com roteiro bem frouxo é, no mínimo, um choque.

Fanning e Imelda Stauton (que interpreta uma das fadas-madrinhas de Aurora) parecem ser as únicas a se divertir em cena. Jolie por vezes chega a parecer desconfortável. Assim como Sharlto Copley (o rei pai de Aurora) que parece nem ter entendido seu personagem direito. Não estamos falando de profundidade de personagens. Malévola é, acima de tudo, um conto de fadas. E personagens de contos de fadas têm a profundidade de uma página de livro. Estamos falando de atuação, de entrega ao papel, de carisma e de cativar o público. Seja porque é a princesa ou porque quem demonstra mais talento em cena, Fanning e Stauton são as únicas que parecem ter estas qualidades por ali. Se a ideia principal era contar a origem da maldade de Malévola, o filme desanda completamente em sua falta de ritmo e desconstrói um mito de décadas em quase duas horas de projeção arrastada, acabando por não contar nada. Todo aquele terror, todo aquele medo mostrados nos trailers fica só por lá mesmo, e o filme que era para ser sombrio acaba beirando o fofinho.

Se você não se incomoda com nada disso, vai adorar o filme. Como já foi dito, é um espetáculo visual. A história, por mais que dê a impressão de nunca começar, acaba tomando rumos inesperados e realmente nos encantamos com Aurora. As crianças no cinema adoraram. Suspeito que uma senhora ao meu lado até chorou (ou era gripe e eu não percebi). Mas se você gosta de cinema de verdade, por mais que seja uma fantasia, prefira algo com mais conteúdo, mais ritmo e atores mais dispostos a se entregar a seus papeis.

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