Resenha do site – A 100 Passos de um Sonho

a100passosUm bom filme é como um bom prato:  deve-se ponderar os sabores, medir os ingredientes minuciosamente, misturar as sensações para que a combinação de tudo possa ser satisfatória. Esta combinação pode ser original, uma mistura inusitada, ou resvalar no lugar comum (como este texto recheado de metáforas culinárias para falar de um filme sobre comida) mas que, não por isso, será menos apetitosa.

Um lugar comum é uma segurança. Quem nunca preferiu fazer um ‘simples’ pudim para a sobremesa ao invés de arriscar um prato mais elaborado e acabar ficando pelo caminho que atire a primeira batata. Salpicando emoções, dosando os momentos e exagerando no pôr do sol, é isso que o diretor Lasse Hallström faz em A 100 Passos de Um Sonho.

É bem verdade que Hallstöm, que surgiu como promessa do cinema-novelão com os excelentes Regras da Vida e Chocolate (ambos indicados ao Oscar de melhor filme, entre outras categorias, em dois anos seguidos) acabou demonstrando que talvez não tivesse tanto talento assim e no ano seguinte a estes dois foi capaz de misturar um elenco estrelar e fazer um angu que desandou feio com Chegadas e Partidas. Depois disso, acabou indo para o terreno fácil das adaptações de romances lacrimosos e, de promessa, quase caiu no esquecimento. Em 2012 chegou a ter seu filme indicado ao Globo de Ouro, mas Amor Impossível era tão inexpressivo quanto esquecível.

Mas eis que, de posse de um livro (não menos lacrimoso), Steven Spielberg e a apresentadora Oprah Winfrey chegaram até Hallström. Ambos concordaram que ele era o melhor nome para a direção e Hellen Mirren a melhor escolha para protagonista. Mirren, vencedora do Oscar por A Rainha, vai da comédia ao drama em segundos com uma sutileza incrível, característica fundamental para o papel da dona de um restaurante amargurada pelo tempo numa pequena vila da França.

A história do filme e do livro, gira em torno de Hassam Kadam (Manish Dayal): um jovem simples com o dom para a culinária. Hassam se muda com o pai e dois irmãos para a Europa após uma tragédia destruir o restaurante da família na Índia. Sem querer, a família acaba se instalando em frente ao renomado restaurante de Madame Mallory (Mirren) e declarando guerra ao decidir montar ali seu restaurante indiano. O roteiro é previsível? Extremamente. Intercala paisagens de cair o queixo com cenas de encher os olhos de lágrimas? Com certeza. Isso o torna ruim? De maneira alguma.

Ao se fiar no óbvio, Hallström constrói um prato simples com ar de refinado. Uma mistura bem dosada de sentimentos e diálogos capaz sim de nos emocionar com aquela história de “Cinderelo” da cozinha. A paixão de Hassam pelos ingredientes e pelo tempero é fascinante. Ver a evolução dos personagens encanta e nos leva junto (com a boca salivando) naquela jornada em busca de uma estrela no Guia Michelin de restaurantes. Hassam só conhece o que a mãe lhe ensinou, tem dom mas não tem técnica. Para sobreviver num mundo competitivo não basta o instinto.

Claro que a gente sabe como tudo vai terminar, mas isso não é algo ruim. Ou vai dizer que você não gosta de se esbaldar num prato que você já conhece o sabor? A proposta aqui não é surpreender o espectador. É fazê-lo sentir. Sentir o mesmo que Hassam sente com seus temperos; o mesmo que seu pai sente com sua terra natal; o mesmo que Madame Mallory sente com seu restaurante. Da descoberta de um novo cogumelo à realização de um prato tradicional, vamos entrando naquela história de cores, sabores, aromas e sentimentos e nos deliciando com tudo o que vemos na tela do cinema.

É impossível desmerecer Hallström ou o roteirista Steven Knight (indicado ao Oscar em 2003 por Coisas Belas e Sujas) pelo trabalho em tela. Por mais “água com açúcar” que A 100 Passos de Um Sonho seja, acaba nos ganhando logo no começo, enquanto Hassam e a família contam sua história ao entrar na Europa. A ingenuidade daquelas pessoas em contar praticamente a vida inteira para um funcionário de alfândega desinteressado no intuito de provar que estão aptos a estabelecer suas raízes ali chega a ser comovente. E eles irão provar que, de uma mistura às vezes inusitada, às vezes óbvia, pode resultar um prato simpático e encantador. Hallström cria um filme que não pretende inovar, que não pretende revolucionar o mundo do cinema e que não exige demais de nossa paciência durando mais do que devia. E o resultado é um feijão com arroz com uma pitadinha de curry… e dos mais deliciosos.

A propósito: veja AQUI uma lista de filmes que têm na comida  um dos seus ingredientes principais.

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