Resenha do site – Amor em Sampa

amor-em-sampaÉ de se pensar o que passou pela cabeça de Carlos Alberto Ricceli e Bruna Lombardi ao conceber, escrever, dirigir e produzir um filme tão ofensivo quanto Amor em Sampa em pleno 2016. Um filme que prega o “seja a mudança que você quer no mundo” e ao mesmo tempo acha bonito estereotipar pessoas e transformá-las em alívio cômico sem maiores explicações.

Quando você discursa sobre respeito, mudar o mundo e coisas do tipo, você simplesmente não pode criar personagens como um casal gay que só sabe gritar e alfinetar. Você está indo contra seu discurso e desvalidando tudo o que fala.

Quando Amor em Sampa começa, somos fisgados pela simpatia de uma canção que fala, justamente, sobre como a beleza de São Paulo está em suas pessoas. A despeito de isso ser verdadeiro ou não, estamos falando de um longa que se propõe, justamente, a ser uma ode à maior cidade do país. Veremos então pessoas normais, comuns, agindo dentro deste cenário urbano, certo?

Não. Veremos estereótipos como o já citado casal gay, o publicitário ecológico, a milionária que veio do nada e só anda de helicóptero e o garanhão que diz que as mulheres “costumam obedecê-lo na cama”. Não é que esse povo não exista. Claro que existe. Mas para vê-los, basta ligar a TV num Zorra Total da vida e ver em casa, não precisamos de um filme maquiado com um discurso de modernidade.

Carlos Alberto Ricceli consegue criar um filme em que seus personagens ou gritam ou dão lição de moral com casais que não possuem a menor química entre si. E parado no tempo. Como se tivesse sido feito no início dos anos 90, Amor em Sampa tem todos os defeitos que os filmes brasileiros da época tinham: interpretações falsas e exageradas, texto artificial e pomposo e palavrão usado como vírgula sempre fora de contexto. E tudo isso vai incomodando. A simpatia inicial gerada pela abertura do filme se dissolve no primeiro diálogo entre Ricceli (que também atua) e Rodrigo Lombardi, em falas tão falsas quanto de uma novela egípcia.

Daí pra frente é só ladeira abaixo. Das meninas que querem fazer teatro e pra isso dormem com o diretor (e acabam em uma peça sobre lixo reciclável inaceitável até para escolas de ensino fundamental) ao homem que quer terminar com a namorada (mais nova) mas não o faz porque não consegue parar de olhar pra sua bunda, cinco “histórias de amor” (muito dificilmente se poderá chamar assim, mas vá lá) se desenrolam na tela intermediadas por canções compostas especialmente para o filme.

Sabe Canções de Amor Idas e Vindas do Amor? Então. Amor em Sampa se pretende um híbrido entre eles, uma versão brasileira dos filmes. Não se engane. Prefira os originais. As canções são absolutamente terríveis, alguns atores são artificialmente dublados (Rodrigo Lombardi soa como um cantor sertanejo meloso) ou cantam pior que um eliminado do The Voice e, em determinado momento, você se pergunta por que está assistindo àquilo e por que ainda não levantou e foi embora lavar a louça.

No ápice do mau gosto, numa cena que além de constrangedora é ofensiva, Thiago Abravanel e Marcello Airoldi entoam uma canção com versos como “Eu sou gay, ele é gay, a gente gosta é de desmunhecar” claramente inspirada (vá lá) no número Keep it Gay do musical Os Produtores. Se lá a caricatura fazia parte da história toda e a canção está perfeitamente encaixada dentro do contexto, aqui é possível perceber o constrangimento dos atores em cena. Como é que você se propõe a pedir “um mundo melhor” e reduz um casal gay a um estereótipo barato, um alivio cômico estapafúrdio que não faz nada além de gritar, saltitar e chorar?

No fim das contas, atores consagrados da TV, como Bruna Lombardi, Rodrigo Lombardi e Eduardo Moscovis, não conseguem ser nada menos que medíocres em cena, fruto de uma má direção e de um texto pobre. Aliado a isso, atores ruins que não conseguem nem disfarçar como Kim Ricceli (filho de Ricceli e co-diretor do filme), Miá Melo e Bianca Bin não conseguem sequer finalizar as histórias a que se propõem, dando a impressão que o filme acabou no meio. O que é bom, aguentar mais seria tortura.

Amor em Sampa é como aquela sua tia que diz: “Adoro gays, meu cabeleireiro é gay. Ah mas meu filho não”. É pra essa tia que ele foi feito. Praquela que acha que gay é super bacana, enquanto serve para rir. Ser pessoa real não pode. O filme consegue ofender gays, heteros, homens, mulheres, publicitários, atores de teatro, o pessoal preocupado com o meio ambiente, negros…. difícil pensar em algum grupo que passe livre dos disparates do roteiro de Bruna Lombardi. E, claro, ofender nossa inteligência.

O Brasil parece ter muito o que aprender ainda em termos de cinema comercial. Ou descamba para o besteirol ou faz coisas como Amor em Sampa, um absurdo sem tamanho que desfila personagens de mau gosto interpretados ou por bons atores perdidos em cena ou atores ruins que sequer conseguem disfarçar. Ao tentar fazer um filme “vendável”, Ricceli pode conseguir agradar uma parcela do público, mas dificilmente conseguiu fazer um filme bom.

No fim fica a dúvida se a mudança e se o mundo melhor que o filme prega é para que passemos (ainda mais) a estereotipar as pessoas e transformá-las em piada ou se nem a produção conseguiu fazer o que diz no melhor esquema “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Constrangedor e ofensivo definem melhor a mixórdia de estereótipos e piadas ruins entre casais mal resolvidos em cena. Fique em casa e reveja Canções de Amor ou Paris Eu te Amo. Será melhor.

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