#comentáriosliterários – Daytripper, de Gabriel Bá e Fábio Moon

Em março de 2011 uma HQ brasileira liderou a lista dos mais vendidos do jornal americano The New York Times. Como de praxe, somente depois de fazer sucesso lá fora que os brasileiros tomaram conta de sua existência (afinal o pensamento geral é de que se é brasileiro, não é bom para os brasileiros). Daytripper, dos irmãos gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon só seria lançada em terras tupiniquins seis meses depois pela Panini.

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Vencedores de três Eisner Awards (o maior prêmio de quadrinhos), os irmãos só conseguiram ficar conhecidos em seu país de origem depois de Daytripper. Lutando por um espaço desde a primeira participação na San Diego Comic Con em 1997, Fábio e Gabriel enfrentaram muito até ali. Entregavam gibis feitos por eles de mão em mão e precisavam convencer as pessoas de que seu trabalho valia a leitura. Sabiam que o fato de Daytripper ter superado títulos como Scott Pilgrim ou The Walking Dead não significava necessariamente um sucesso no Brasil. E que o fato de não escreverem sobre super-heróis também podia, na época, assustar o público. Especialmente o brasileiro, desacostumado com HQ sobre o cotidiano.

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Mas hoje sabemos que a história é diferente. HQs das mais variadas línguas e dos mais variados gêneros lotam prateleiras de livrarias e alcançaram o status de literatura.

Daytripper?

Não foi sem relutar que anos depois de seu lançamento sentei para ler a tão falada HQ de sucesso. É preciso dizer que não sou leitor do gênero. Leio livros desde que me entendo por gente, quando criança lia gibis do Tio Patinhas, mas nunca consumi HQs adultas. Então está explicada a minha relutância: ‘HQ não é livro, nunca vai chegar ao mesmo patamar’, dizia para mim mesmo. Pessoa tola.

Desnecessário dizer que consumi a HQ de quase 300 páginas em dois dias. Sua história é tão simples e ao mesmo tempo tão fantástica que não tem como não se envolver. Brás está completando 31 anos. Trabalha escrevendo obituários para um jornal mas sonha em ser escritor como o pai, que faz sucesso com repetidos lançamentos literários. Brás se vê preso em um emprego que não gosta, como um meio para um fim. Mas quando este fim vai chegar? Ele chega ao final do primeiro capítulo, mas não da forma que Brás esperava: ele morre em um assalto a caminho do evento de lançamento do livro do pai.

daytripper

Sim, o protagonista morre ao final do primeiro capítulo. E ao final de todos os outros. A história se desenrola de forma que, a cada novo capítulo vemos um dia da vida de Brás, com as mais diferentes idades, em que no final ele morre e tem direito a um obituário. Na infância, em uma viagem onde conhece uma garota, no dia do nascimento do próprio filho, em um evento de lançamento do próprio livro, na velhice. Vamos viajando pela vida deste protagonista que nos ganha em pequenos atos e expressões, com poucas frases mas com muita emoção.

É uma obra indescritível. Simplesmente uma das melhores coisas que já li até hoje sem sombras de dúvidas. Daytripper consegue o que poucos livros conseguiram: ao fechá-lo depois da última página, me peguei parado, olhando para aquele livro nas mãos e pensando. Pensando sobre Brás, sobre minha própria vida, sobre como somos frágeis e efêmeros e podemos não estar aqui no momento seguinte. Sobre como nem sempre os sacrifícios por um bem maior compensam. Sobre amizades, amores, filhos, cachorros, pais, carreira… Cada dia na vida de Brás vai nos mostrar um pouquinho dele e de tudo o que fez com que ele se tornasse quem se tornou. E cada dia trará uma reviravolta inesperada.

A HQ de Fábio e Gabriel é, definitivamente, literatura. Das melhores. Melhor do que muita porcaria fantasiada de livro que vemos em listas brasileiras de mais vendidos. Para ser lida e relida em diferentes momentos da vida. Não tem como não se identificar com Brás, que tinha nome de personagem e só queria ser escritor. Como diz o texto oficial sobre Daytripper: trata-se de uma jornada lírica que usa momentos silenciosos para fazer as grabdes perguntas.

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