Resenha do site – Julieta

julieta-posterDepois de filmes mais arriscados como Amantes Passageiros (uma comédia escrachada) ou A Pele Que Habito (um suspense tenso), ou até mesmo do fraco Abraços Partidos, Pedro Almodóvar volta ao que sabe fazer de melhor: dramas femininos.

Diversos de seus filmes mais notáveis, como Tudo Sobre Minha Mãe, Volver ou Fale Com Ela focam no universo das mulheres. Frequentemente este universo é retratado sem muitas vaidades, com a beleza vindo naturalmente e onde o interesse romântico (quando existente) é um mero detalhe da história, um meio para um fim, e não seu fio condutor. Suas mulheres são sempre ferozes, fortes, emotivas e tão reais que temos a impressão de poder encontrá-las na rua a qualquer momento. Mesmo nas personagens menores, o cuidado é tão grande que muitas delas poderiam protagonizar seu próprio longa.

E é novamente neste terreno que o diretor espanhol aduba Julieta, seu mais recente filme, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes (prêmio que Almodóvar concorreu pela quinta vez). Na história, conhecemos a personagem título, interpretada espetacularmente por Emma Suárez. De início conhecemos aquela mulher segura, de meias palavras que, por um azar do destino desmorona e vê sua vida vir abaixo de repente. Abandonando o namorado e voltando para o antigo prédio onde morava, Julieta se vê revolvendo o passado. E então somos apresentados à jovem e apaixonada versão desta mulher, agora interpretada por Adriana Ugarte. Enquanto a Julieta madura nos conta como foi sua vida, vemos uma bela mulher cheia de vitalidade vivendo-a na tela.

Sem espaço para humor, Almodóvar destrincha aquelas mulheres, que são uma só, e todas à sua volta. Novamente, os poucos homens presentes são apenas parte de um todo, nunca fundamentais. Levam à acontecimentos mas a impressão que temos é que a vida daquelas mulheres teria sofrido consequências similares sem eles. Todas parecem à beira de um colapso e de certa forma os homens são apenas o estopim.

O fato é que Pedro Almodóvar sabe contar uma história como poucos cineastas atuais. De repente e sem perceber, já nos primeiros minutos de filme, nos vemos completamente imersos na vida daquela mulher que já foi apaixonada e hoje mostra traços de um sofrimento silencioso e solitário. E aos poucos vamos sabendo por quê. (Não por acaso, o nome inicial do filme era Silêncio.)

Adaptado de três contos da escritora canadense Alice Munro, o longa tem um ar de tensão, um ar de que “algo terrível vai acontecer” permanente. A história, no entanto, se desenvolve de forma linear e sem muitas surpresas. Pode ser que Julieta não vá figurar entre os grandes filmes de Almodóvar, como o já citado Tudo Sobre Minha MãeMulheres À Beira de Um Ataque de Nervos ou Má Educação. Mas ao nos brindar com um filme denso e inteligente e com o primor visual costumeiro, com suas personagens bem construídas e com sua forma ao mesmo tempo natural e repleta de excessos de pintar o mundo, Pedro Almodóvar nos entrega não apenas um filme acima da média de suas produções, mas também acima da média do cinema atual, que tanto gosta de subestimar seu público.

Se vai ser um sucesso? Dificilmente. Se merece ser visto? Sim, e não apenas uma vez.

Anúncios

Um comentário sobre “Resenha do site – Julieta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s