Resenha do site – Animais Noturnos

animais-noturnosDiversas mulheres dançam nuas em câmera lenta em meio a brilhos, lantejoulas, fitas e faíscas. A cena, esteticamente deslumbrante, deixaria Botero em êxtase. Mas ao mesmo tempo carrega consigo algo de desconfortável, de incômodo. E sintetiza a essência de Animais Noturnos.

O tom esteticamente perfeito e ao mesmo tempo desconfortável estará presente durante as quase duas horas de filme. E vai deixar você ao mesmo tempo deslumbrado e desconfortável na poltrona. O misto de beleza e crueldade é o mote principal do segundo longa do diretor Tom Ford.

Já um estilista renomado, Ford ataca pela segunda vez na direção e roteiro de um filme. Se Direito de Amar trazia em si a beleza externalizada e os sentimentos presos até o ponto de estourarem, em Animais Noturnos ele externaliza estes sentimentos ao ápice. As cenas são, como de se esperar, de uma beleza plástica fenomenal, mesmo as mais violentas parecem saídas de catálogos de moda. Porém não se engane achando que elas são apenas um artifício. Não, elas servem à história de forma impactante e completamente necessária.

O longa acontece em três histórias que se intercalam na tela. Na principal delas, Amy Adams é Susan, uma mulher lindíssima e rica (ainda que à beira da falência), casada com o charmoso Hutton (Armie Hammer). Ambos carregam em si o ar de beleza e desconforto. Seu casamento parece ser somente de aparências e Susan passa os dias sozinha em uma casa imensa e gélida. Quando ela recebe pelo correio uma cópia do livro que o ex-marido (Jake Gyllenhaal) escreveu e a dedicou, Susan mergulha naquela história: um homem viajando por uma estrada deserta com a mulher e a filha é atacado por um bando de marginais. E aí a crueldade, a sujeira e o calor se contrapõem à vida indefectível de preto e prata de Susan: tudo é muito marrom, muito sujo. E muito visceral e emocional. Se ela mantém um ar impassível e conversa por sussurros mesmo diante da frieza do marido e de situações sociais incômodas, a história do ataque é toda gritos, tapas e suor.

Em um terceiro plano, Susan se lembra enquanto lê, de como era seu relacionamento com o ex, como foi quando se conheceram e casaram, e como tudo degringolou. A luta desta personagem consigo mesma, o medo de expressar suas verdadeiras emoções e o fato de se ver, de certa forma, exposta naquelas palavras escritas, a colocam em primeiro plano nas três histórias, embora em uma delas ela seja apenas uma sombra.

As relações do livro se opõem em emoções, cores e estética de forma perturbadora e ainda assim complementares: uma parte não seria nada sem a outra.

Não há uma vírgula, um fio de cabelo, uma luz, um close fora do lugar. Às vezes o rosto de Amy Adams parece pairar no ar, emoldurado por cabelos ruivos em meio a um fundo preto. Em outras, seus grandes olhos verdes brilham, ainda que com uma tristeza permanente. Tom Ford sabe o que faz e constrói um filme denso, pesado. Mas de forma belíssima. Seu elenco, que além de Adams, Hammer e Gyllenhaal ainda tem gente do calibre de Isla Fisher, Jena Malone, Laura Linney, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson e Michael Sheen, trabalha em favor do filme de forma excepcional, formando um conjunto que resulta em um dos melhores filmes do ano. E em um dos mais desconcertantes. Não há como permanecer impassível quando a tela escurece pela última vez. Não há como não sentir que levamos um soco no estômago e que vamos demorar algum tempo para nos recuperarmos.

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4 pensamentos sobre “Resenha do site – Animais Noturnos

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  3. Do trailer, ele chamou a atenção. A maioria dos filmes Jake Gyllenhaal sempre gostei. Isso não faz de “Animais Noturnos” um filme enfadonho ou desinteressante. O fato é que as duas tramas chamam a atenção, embora a história do livro seja muito mais intensa – e valeria um filme apenas sobre ela! Além disso, os cortes que intercalam as tramas são muito bem orquestrados, e aqui vale dar destaque aos match cuts que aumentam ainda mais a fluidez da narrativa e as lembranças da protagonista.

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