Existem mais semelhanças entre Titanic e La La Land do que você imagina

Texto de Ana Maria Bahiana publicado no site da Revista Exame

Acontece só de vez em quando: Um filme vem de um lugar pouco observado da indústria, tocado passionalmente por um realizador obstinado. O realizador não é um desconhecido, mas algo no projeto cria toda sorte de obstáculos — não é o que a indústria quer bancar naquele momento, há algo de, ao mesmo tempo, antiquado e extremamente ousado em sua proposta, há dúvidas se terá público suficiente, o custo é alto com relação à ideia. Os estúdios hesitam, e os independentes têm medo.

O realizador persiste. Luta, briga com quem se põe no seu caminho, coloca a mão no bolso se for preciso. Quando finalmente a obra está pronta, ninguém sabe o que esperar. E eis o que acontece: porque ela é pessoal, autoral, nascida de paixões e obsessões únicas, ela não se parece com que o está nas telas naquele momento, e passa, altivamente, ao largo de todos os temas pontuais da temporada. Algo nela reflete ao mesmo tempo valores estéticos do passado, de alguma era de ouro que é mais uma lembrança afetiva do que real, e emprega tecnologia de ponta, reposicionando todos esses valores num contexto novo.

Por todos esses motivos, o público adora — a conexão é imediata, porque é, simultaneamente, confortável e diferente. E aqui vem a parte mais misteriosa do fenômeno: de alguma forma, a obra oferece ao público e à indústria, aos de fora e aos de dentro, exatamente aquilo que eles procuravam e ainda não sabiam que queriam.

Aconteceu em 1997 com Titanic. Três anos antes, durante o lançamento de True Lies, o diretor James Cameron falava sem parar na possibilidade de finalmente realizar o projeto de seus sonhos — “tem um dos maiores desastres da história como pano de fundo, mas não é sobre isso”, ele me disse, na época. Cameron achava que a hora era certa por razões práticas: naquele momento já existia a tecnologia necessária para realizar a sua concepção visual; e uma série ininterrupta de sucessos desde O Exterminador do Futuro, em 1984, lhe garantiam o acesso ao financiamento necessário.

Só que não era bem assim. A pré-produção começou a se arrastar, deixando o principal financiador, a Fox, cada semana mais nervoso. O estúdio tinha um precedente histórico importante: Cleópatra que, em 1963, quase destruira a empresa, apesar (ou talvez por causa) de Elizabeth Taylor e Richard Burton, o Brangelina da época, encabeçarem o elenco. A Fox só dera a luz verde para Cameron por causa de seu curículo de sucessos – a ideia do filme em si não tinha empolgado nenhum dos chefões, parecia antiquada e, além de tudo, complicadíssima de ser realizada.

Quando as filmagens começaram, atrasadíssimas e repletas de acidentes e retrocessos de planejamento, o estúdio, a imprensa e o circuito de rumores que movimentam Los Angeles decidiram que o projeto era fadado ao fracasso. Reportagem e mais reportagens davam conta do quanto o filme estava, como o navio que lhe dava o título, afundando.

Depois de várias brigas ao telefone, a Fox despachou seu presidente de produção para o México – onde Cameron havia criado o maior set aquático do mundo, especialmente para o filme – com a missão de mandar parar tudo. Cameron encostou o executivo literalmente contra a parede e disse: “tudo bem, não querem mais pagar, pago eu mesmo o que for necessário”. De setembro de 1995 até setembro de 1997, Cameron trabalhou debaixo de uma das artilharias mais pesadas que já vi nesta cidade. O consenso era: veremos em breve o segundo Cleópatra, o filme que vai enterrar a Fox de vez.

O resto, como se diz, é história. Titanic rendeu mais de 2 bilhões de dólares na bilheteria mundial e foi indicado para 14 Oscars, levando 11 para casa. Para as plateias era algo novo –quem é esse Leonardo di Caprio? Que maravilha de reconstituição de época! Olha como o navio afunda! — somado a algo que sempre deu certo: a história dramática de amor entre dois jovens destinados um para o outro, mas atormentados pelo destino.

Para a indústria, depois de uma década de filmes independentes de pequeno orçamento que, magistralmente orquestrados pela Miramax e seu criador, o gênio do marketing Harvey Weinstein, ganhavam sempre as maiores láureas, ali estava um filme como os épicos dos velhos tempos: imenso, caro (200 milhões de dólares de custo total), com uma mistura excitante de nova tecnologia e elementos de produção e valores tradicionais do cinema da era de ouro de Hollywood. Era algo completamente diferente da safra de 1997 — outros indicados incluíam L.A. Cidade Proibida, Melhor Impossível e Ou Tudo Ou Nada — e, ao mesmo tempo, não muito distante, digamos, da safra de 1959, quando Ben Hur foi indicado a 12 Oscars e levou 11 para casa.

Eis que 19 anos depois estamos vendo uma nova iteração do mesmo fenômeno. Como lá nos anos 90, a Academia, ou seja, o establishment da indústria, está em crise de identidade. Durante o ano os estúdios enchem os cofres com filmes de super-herói, terror e ficção científica e, no final, premiam dramas realizados com recursos independentes, adoram uma isca-de-prêmio como O Artista, em 2012, e acolhem até uma obra claramente crítica do que fazem o ano todo como Birdman, em 2015. Mulheres, negros, latinos e asiáticos reivindicam com razão maior participação na indústria e, por extensão, nos prêmios. Para culminar, depois de oito anos de uma Casa Branca democrata, progressista e amiga das artes, os prêmios estão sendo entregues em meio a uma ressaca de baixo astral trumpista.

La La Land é um filme que teve, como Titanic, um número recorde de indicações: 14, mas levou “apenas” seis estatuetas para casa. Ao contrário de Titanic, seus ganhos com a crítica têm sido majoritariamente positivos e seu desempenho na bilheteria, embora excelente para um filme que custou 30 milhões de dólares e está sendo distribuído por independentes, ainda está na casa dos milhões – 340 milhões de dólares de receita nos EUA e pelo mundo afora. Mais uma diferença: seu diretor e roteirista, Damien Chazelle, tem 32 anos e apenas dois filmes em seu currículo (Guy and Madeline On a Park Bench e Whiplash) e nenhuma tração com os estúdios.

Mas, como James Cameron, Chazelle perseguia o que viria a ser La La Land há anos – seis anos, para ser exato. “Levamos um não de todo mundo nesta cidade”, Chazelle me disse. “Quando eu dizia a palavra “musical” qualquer mostra de simpatia ia embora na hora.” Na verdade, como James Cameron duas décadas atrás, Chazelle propunha exatamente um novo olhar sobre valores antigos e clássicos, um impulso pessoal, autoral, que vinha desde seu primeiro longa — Guy and Madeline — um 16 mm preto e branco, feito em 2009 por 50.000 dólares arrancados de amigos e parentes, elogiadíssimo pela crítica, mas visto por meia dúzia.

La La Land é, em essência, Guy and Madeline em Los Angeles. “Esta é uma cidade que é cinema, respira cinema, referencia cinema o tempo todo, e que eu queria usar como uma experiência, trazê-la para o primeiro plano, torná-la um elemento ativo, um terceiro personagem numa história de amor entre duas pessoas. Duas pessoas e uma cidade, uma cidade onde, ainda hoje, música e cinema estão sempre juntas”, afirma Chazelle.

Realmente, no meio da frase acima qualquer executivo de um grande estúdio já estaria olhando para o relógio. Foi preciso colocar o projeto na gaveta e fazer outro filme – Whiplash – para que La La Land fosse realizado. Feito com recursos particulares, sucesso no festival de Sundance de 2014, Whiplash colocou Chazelle em contato com dois bons distribuidores indies: Sony Classics e Lionsgate. A Sony Classics comprou os direitos de distribuição de Whiplash, mas a Lionsgate, perdedora na disputa, fez uma proposta: financiaria o próximo projeto de Chazelle, mas desde que ele estivesse ok com um orçamento de modestos 30 milhões de dólares, e oito semanas de filmagem e três meses de pré-produção. Em outras palavras: um tremendo aperto.

Chazelle pagou do seu bolso muita coisa, inclusive todos os ensaios – realizados no estacionamento da Lionsgate —, incluindo o que viria a ser o já antológico número de abertura de La La Land. Como tantos anos atrás, a cidade toda dizia que não havia jeito daquilo dar certo: diretor muito jovem, pouca experiência, um musical? Em 2016?

E assim, por todos esses percalços, por todas as coincidências, por todos os elementos que fazem dele o filme que a indústria não sabia que queria (que, na verdade, a indústria rejeitou até o fim) é que La La Land é o melhor dos filmes dentre os indicados ao Oscar deste ano.

Como é quase tradição, o filme de Chazelle tem um oponente diametralmente oposto em proposta: o lindo Moonlight, de Barry Jenkins, igualmente pessoal e independente (os dois venceram os Globos de Ouro, nas categorias melhor filme, musical/comédia e drama, uma divisão que não existe no Oscar). La La Land é o filme-fenômeno, aquele que, de vez em quando, lembra a Los Angeles quem ela é, quem ela foi e por que sua trajetória até aqui ainda vale a pena.

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