Resenha do site: Laerte-se

laerteseCom quarenta anos de carreira, Laerte Coutinho é um dos cartunistas mais conhecidos do país. Suas tirinhas povoam jornais brasileiros há décadas e o artista sempre ficou por trás das câmeras, sendo visto através de seus personagens.

Mas eis que em 2010, aos 50 anos, o criador tomou o lugar das criaturas nos holofotes ao se assumir crossdresser e transgênero. Laerte ganhou a mídia como nunca antes havia acontecido. E virou tema de documentário: Laerte-se, o primeiro documentário brasileiro da Netflix.

Como retrato, Laerte-se é absurdamente impactante. Ao mostrar diante das câmeras um homem como qualquer outro, com seus anseios e inseguranças, é absolutamente impossível não se identificar. Laerte fala da vida, de seus medos, de se assumir para os pais, da convivência com filhos e netos, do medo de se expor. Revela sua bagunça e sua nudez, seu guarda-roupas e sua casa. Se mostra, enfim, humano.

Laerte conta, aos poucos, como usou um personagem para revelar seu desejo de se vestir de mulher, como aos poucos foi assumindo esta identidade. Conta como foram as reações, como lidou com a exposição na mídia. Fala de sua indecisão de colocar ou não silicone.

Já como filme, o longa dirigido por Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum é decepcionante. Com entrevistas no sofá de casa intercaladas por tirinhas animadas, Laerte-se se parece muito mais com um especial de TV, com um quadro do Fantástico, que com um filme. Parece que mesmo num documentário, a linguagem de TV no Brasil ainda é predominante.

Mesmo com o ar de “sofá da Hebe”, é gigantesco o impacto que o filme provoca. Como um homem aos seus 50 anos pode ser inseguro? Será que todos nós nunca deixaremos as inseguranças de lado? Laerte não esconde fatos. Admite que teria sido impossível se assumir anos atrás. Admite que reprimiu desejos homossexuais. Admite que para ele, enquanto figura pública, é mais fácil a aceitação que para uma pessoa comum.

A coragem e determinação de Laerte ao se assumir “mulher” depois de tanto tempo de vida. O exemplo e a lição acabam ficando. Laerte hoje é uma mulher. Embora não queira fazer operação de mudança de sexo, se define como mulher, fala de si mesma no feminino.

Para o filme, falta um bom tanto para soar como um documentário. Para Larte, a exposição crua de si mesma causa impacto e identificação. Para nós, fica o retrato de um artista que, ainda com certa demora, teve a coragem de assumir quem era e vi a público. E que hoje se tornou tão ou mais importante que suas criações.

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