O menino no Acre e a burrice editorial brasileira

Um rapaz de 25 anos desaparece de casa. Deixa as paredes, teto e chão do quarto cobertos de escritas enigmáticas e uma estátua do filósofo e teólogo Giordano Bruno no valor de cerca de R$10 mil no meio do cômodo vazio. Família desesperada, sumiço inexplicável. Mas o rapaz deixou algo a mais: 14 livros criptografados.

A história tomou a mídia cerca de cinco meses atrás envolta em mistério. E claro que a internet brasileira fez um escândalo absurdo como só a internet brasileira sabe fazer com inutilidades. Os pais, após uma viagem em que passaram 20 dias fora, almoçaram com Bruno Borges (na época com 24 anos) e contaram que o menino “se despediu” após o almoço. Foi a última vez que o viram até esta sexta-feira, 11 de agosto. Bruno “desapareceu” dia 24 de março, sem deixar notícias e sem dar explicações, deixando apenas o quarto trancado como descrito acima.

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Ninguém sabia o que tinha acontecido com Bruno. Rapto? Suicídio? Abdução? Ritual de magia negra? Todas as possibilidades iam sendo levantadas. Pais, imprensa e amigos, todos preocupados.

Mas então a investigação policial foi correndo, e informações foram sendo adicionadas: dois amigos afirmaram ter ajudado Bruno a “preparar” o quarto. Um deles afirmou inclusive ter um contrato com Bruno. Mas o que será que tudo isso significava?

Sexta-feira, 11 de agosto, Bruno reapareceu. “Voltou para casa”, como afirma o pai. Bem, saudável. O que aconteceu com Bruno? Por que o sumiço e o mistério?

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Bom, tudo não passou de um belíssimo golpe de marketing. E como funcionou!

Já publicado, o primeiro volume dos 14 escritos de Bruno estava na lista dos livros mais vendidos do Brasil entre 24 e 30 de julho , conforme afirma uma reportagem do G1. O livro TAC: Teoria de Absorção do Conhecimento, publicado pela editora Arte e Vida explica toda a criação do autor.

Antes de Bruno voltar, a polícia investigava dois amigos. Um deles tinha um contrato assinado por Bruno dividindo os lucros que viriam das publicações. O outro, afirmou ter ajudado na “logística” e mantinha em sua casa móveis do quarto de Bruno.

Hoje o sumiço está bem claro, foi tudo um golpe de marketing para fazer os livros venderem. E eles estão vendendo. Se as pessoas que leem querem conhecer a teoria de Bruno? Muito dificilmente. Estão sim curiosas sobre “o menino do Acre”, como ele ficou conhecido.

Quando Bruno reapareceu na sexta, a família disse que ele não falaria com a imprensa. “Estava muito abalado” para falar. No entanto no domingo seguinte já havia uma exclusiva do rapaz no Fantástico. Bruno foi esperto o bastante pra dar um golpe de marketing e garantir suas vendas aos incautos leitores brasileiros. Mas não o bastante pra conseguir disfarçar o seu golpe.

Parabéns a todos que caíram no golpe, que elevaram um menino que escreveu nada menos que um manual de regras e auto-ajuda, à categoria de celebridade literária. E a todos aqueles que se dispuseram a comprar e ler a obra que, segundo consta, é essencialmente um tratado machista e retrógrado de “estilo de vida”. E parabéns à editora Arte e Vida, que encontrou uma mina de outro e cujo conteúdo nem se preocupou em revisar.

Para saber mais sobre os ensinamentos do livro, acesse ESTE LINK onde o G1 comenta os “sábios” ensinamentos do jovem profeta e os erros da publicação.

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2 pensamentos sobre “O menino no Acre e a burrice editorial brasileira

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