A parábola do mimimi

João acordou naquele dia no mesmo horário de sempre. Como sempre, sentou-se à mesa do café da manhã com o smartphone na mão e circulava pelas redes sociais enquanto bebia seu café preto. Via muitas postagens de pessoas reclamando de preconceito: negros, gays, mulheres e achava que era tudo puro mimimi, que preconceito era coisa de gente chata. João, homem branco vindo de origem humilde, orgulhava-se de ter um bom emprego e de ter estudado sempre em escolas públicas e dizia que não havia privilégios no mundo, que todos tinham as mesmas chances.

Um dia, uma coisa estranha aconteceu: quando João acordou, não estava mais em seu corpo e em sua vida. Ainda possuía a consciência de que era ele, João, porém, também possuía uma outra, a de Antônio. Quando João/Antônio acordou naquela manhã, a primeira coisa que fez foi enviar uma mensagem de bom dia para um número identificado como “amor” no celular. O dia foi transcorrendo e João foi percebendo que a vida de Antônio era bem parecida com a sua: ônibus, trabalho, compromissos. Até que na hora do almoço Antônio foi para um restaurante e se encontrou com Alberto, seu namorado, e o cumprimentou com um rápido beijo nos lábios. Até aquele momento João nem desconfiava que Antônio era gay.

Antônio sentou-se e segurou a mão de Alberto. João percebeu então os olhares em volta. Percebeu que um homem olhou pra eles e fez um comentário baixinho para a mulher com quem estava e ambos riram. Naquele momento, João conseguiu sentir a dor de Antônio.

A noite chegou e João/Antônio foi dormir. Os dias seguintes voltaram à normalidade e João continuava sua vida. Mas então o estranho aconteceu novamente.

Desta vez, João acordou no corpo de Maria. Uma moça relativamente jovem e bonita, que gostava de usar roupas sérias, mas justas. Se sentia feliz assim. João/Maria se olhou no espelho e se sentiu realmente bonita. Maria tomou um ônibus para o trabalho. No coletivo, sentia olhares em seu corpo, muitos homens sequer disfarçavam o olhar de desejo. Ela não gostava de sentir estes olhares, mas ficava quieta. Quando chegou no trabalho, João/Maria descobriu que tinha uma reunião. Maria fazia parte da diretoria de uma empresa, junto com mais dois homens. Foi à reunião. Quando terminaram, o chefe da empresa pediu para que os homens ficassem na sala, pois precisava rever alguns detalhes. Como também fazia parte da diretoria, Maria também ficou. Porém, o chefe disse que ela poderia sair para buscar um cafezinho pra eles, enquanto eles definiam alguns pontos críticos de uma crise. Naquele momento, João percebeu como Maria era desvalorizada apenas por ser mulher.

Novamente a noite chegou e João/Maria dormiu e acordou apenas João. Mais alguns dias se passaram e sua vida seguia. Então, pela terceira vez, o estranho aconteceu e João acordou no corpo de José.

José era um rapaz negro, de seus 20 e poucos anos, que estagiava em um escritório de advocacia enquanto terminava sua faculdade de Direito. José ia de bicicleta para o escritório com sua mochila nas costas. Quando chegou, foi acorrentar sua bicicleta no estacionamento em frente ao trabalho. Notou que um homem se aproximou e ficou observando o que ele fazia. Quis perguntar o que o homem estava olhando, mas ele sabia. Decidiu que aquele dia não queria confusão e deixou passar. João/José entrou no elevador do prédio e notou uma moça ao seu lado. Quando a mulher o viu, imediatamente segurou a bolsa mais próxima ao corpo e deu um passo se afastando. João pôde então perceber como era ser julgado somente por sua cor.

Mais um dia terminou e João/José foi dormir e João acordou novamente em seu corpo. Vários dias se passaram e o estranho não voltou a acontecer.

João acordou naquele dia no mesmo horário de sempre. Como sempre, sentou-se à mesa do café da manhã com o smartphone na mão e circulava pelas redes sociais enquanto bebia seu café preto. Via muitas postagens de pessoas reclamando de preconceito: negros, gays, mulheres e achava que era tudo puro mimimi, que preconceito era coisa de gente chata. João lembrou-se naquele dia de Maria, de José e de Antônio, e pensou sobre o que cada um tinha sentido e vivido. João, homem branco vindo de origem humilde, orgulhava-se de ter um bom emprego e de ter estudado sempre em escolas públicas e dizia que não havia privilégios no mundo, que todos tinham as mesmas chances. João continuava achando que preconceito era coisa de gente chata e que não havia privilégios no mundo. Sentir as dores do outro não fez João mudar seus conceitos. Porque para João isso não lhe diz respeito.


 

FINAL ALTERNATIVO

Mais um dia terminou e João/José foi dormir e João acordou novamente em seu corpo. Vários dias se passaram e o estranho não voltou a acontecer.

João acordou naquele dia um pouco mais cedo, tinha um compromisso em um prédio no centro da cidade. Quando ele entrou no elevador do prédio, percebeu ao seu lado Maria, Antônio e José. Notou que Maria olhou de canto de olho para José e se afastou um pouco, segurando sua bolsa. Notou que José, por sua vez, olhou para Antônio com desdém. Antônio falava com outro homem ao telefone e o chamava de “amor”. O mesmo olhar de desdém que Antônio lançou a Maria pelo espelho, ao ver suas roupas justas. João lembrou do que tinha vivido na pele de cada um deles e desceu do elevador. João, homem branco vindo de origem humilde, orgulhava-se de ter um bom emprego e de ter estudado sempre em escolas públicas e dizia que não havia privilégios no mundo, que todos tinham as mesmas chances. João continuava achando que preconceito era coisa de gente chata e que não havia privilégios no mundo. Sentir as dores do outro não fez João mudar seus conceitos. Porque para João isso não lhe diz respeito.

Flávio St Jayme

respeito

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