#ComentáriosLiterários – O Quarto de Giovanni, de James Baldwin

Nos últimos meses o nome do escritor James Baldwin voltou à tona graças ao sucesso de crítica do filme Se a Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk) e suas premiações e três indicações ao Globo de Ouro, incluindo melhor filme e roteiro. O longa adaptado de um dos livros mais conhecidos de Baldwin é um dos favoritos do ano para o Oscar.

James Bladwin foi perseguido no Estados Unidos na década de 50 por ser negro e gay. Seus romances deram voz importante aos movimentos negros americanos e se tornaram marcos da literatura. Mas O Quarto de Giovanni foge destes padrões.

O segundo livro de Baldwin também se tornou um marco, mas por diferentes motivos. Não sem razão, é considerado hoje um dos livros mais importantes da literatura gay americana. Depois de ser recusado pelas editoras, justamente por não trazer o teor racial de seu primeiro sucesso editorial, o livro conseguiu, com o tempo, alcançar o merecido sucesso.

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O Quarto de Giovanni conta a história de David, um americano que está em Paris esperando a noiva voltar de viagem. Na cidade luz ele conhece Giovanni, um garçom de um bar, com quem passa a ter uma conturbada relação. Escrito em 1956, o livro carrega consigo todo o perigo de se assumir gay na época.

Tanto Giovanni quanto David, mesmo morando juntos, nunca referem-se a si mesmos como homossexuais ou como um casal. Ao contrário, se perguntam que vida poderão ter juntos e falam em relacionamentos com mulheres. David ainda tem sua noiva e Giovanni não descarta a possibilidade de voltar a se relacionar com mulheres. Quando o livro fala abertamente de homossexualidade é para definir as “bichas afetadas” que os cercam, quem os dois temem se tornar um dia.

Profundo, intenso e incrível, O Quarto de Giovanni traz personagens que passam longe dos estereótipos da literatura atual. São homens comuns, com conflitos pessoais capazes de enlouquecer o leitor. Leitor este que, por mais que saiba o destino de um dos personagens desde o início do livro, teme este final. Um leitor que luta também um dilema interno: chegar logo à última página para descobrir o real desfecho ou ler lentamente, para não se despedir de David e Giovanni.

Quando comparado à títulos conhecidos da literatura gay no Brasil, O Quarto de Giovanni é fora do lugar comum. Não tem clichês, não é infantiloide. Não tem corpos musculosos e aceitação nem high school. Tem gente de carne e osso (e aqui vale dizer que o livro traz muito da vida pessoal de Baldwin), tem dilemas que qualquer homem que um dia se assumiu (ou pensou em se assumir) gay já passou. E, além de tudo isso, tem Paris ao fundo.

Um livro absolutamente necessário para quem gosta de literatura de qualidade e para qualquer LGBT que sinta a necessidade de conhecer um pouco mais de si mesmo, ainda que através da história de outras pessoas.

O Quarto de Giovanni – James Baldwin

Companhia das Letras – 2018

Preço médio R$39,90

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