Odorico Paraguaçu está de volta. E o timing não poderia ser melhor

“Quando é flagrado em suas falcatruas, responde com mentiras, culpa a imprensa marronzista ou os políticos que lhe fazem oposição, a esquerda maquiavelenta.”

Esta é uma descrição de Odoorico Paraguaçu. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Ou não?

A Bertrand Brasil reedita mês que vem, depois de anos fora de catálogo, Sucupira, ame-a ou deixe-a , o livro de contos que Dias Gomes escreveu depois do sucesso da série O Bem-Amado , da TV Globo.

Paulo Gracindo como Odorico

O seriado dos anos 1980 já foi um subproduto da novela da década de 1970, adaptada da peça de mesmo nome.

O timing da publicação parece ter endereço certo, mas Sônia Jardim, presidente da Bertrand, garante que foi coincidência. (tá boa!)

Odorico Paraguaçu nunca esteve tão moderno. O coronel que alinhava terno branco e chapéu panamá no horário nobre da televisão ficou “pratrasmente”, diria o personagem de Dias Gomes. Mas sua essência resistiu ao tempo — 46 anos depois da estreia de “O Bem-Amado” na TV Globo, completados dia 22 deste mês, o prefeito de Sucupira parece representar um arquétipo da classe política brasileira que ainda sobrevive no imaginário coletivo, em tempos de recorrentes denúncias de corrupção e discursos histriônicos nos púlpitos do Congresso Nacional.

Odorico Paraguaçu exalava ambiguidades. Subiu no coreto da fictícia Sucupira para prometer um cemitério à cidade, encarnando a figura do “pai do povo”, mas tramou a morte de conterrâneos para inaugurar sua principal promessa. Pediu ambulâncias ao governo federal e desejou “umas epidemias” para dar uso aos veículos. Misturava os interesses públicos com seus planos privados: “Além das ambulâncias, precisamos ter umas ‘confabulâncias'”, diz o personagem, interpretado pelo ator Paulo Gracindo, em uma das cenas.

Marco Nanini como Odorico no filme de 2010

Icônica por natureza, a novela lançada em 1973 teve a marca da inovação tecnológica ao ser a primeira produção a cores da televisão brasileira e pelo desafio à ditadura, por exibir um retrato crítico da política nacional. Foi alvo de censura e, mesmo assim, caiu nas graças do país ao satirizar as tramas de um político sem escrúpulos. Dias Gomes chegou a revelar medo de Odorico se tornar tão querido e anestesiar o tom crítico da obra.

— Lamentavelmente, o que nós temos de lá para cá é uma disseminação desses Odoricos (na política) — avalia o historiador Daniel Aarão Reis. — Apesar dos horrores da repressão e de ter aprofundado as desigualdades no país, a ditadura desempenhou um papel modernizante, e os Odoricos, que representavam o setor arcaizante, sobreviveram, embora subordinados, e mantiveram certa importância nas margens.

A redemocratização não alterou o perfil do político retratado em “O Bem-Amado”. Odorico simbolizava a troca de favores e uso deturpado do bem público, aspectos que, segundo Aarão Reis, permanecem em alguns atores políticos.

Odorico ganhou as telas duas vezes: na já citada novela O Bem Amado, de 1973 na pele de Paulo Gracindo, e na adaptação da obra para o cinema, em 2010 interpretado por Marco Nanini. O filme virou série na TV Globo com quatro episódios em 2011.

Com informações DE e DE

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