Artistas propõem reflexão sobre o mundo depois da pandemia

O “Pensando o Amanhã”,  projeto do Goethe-Institut, apresenta depoimentos de artistas e intelectuais de diversos países que lançam olhares diferentes sobre o que será o planeta pós-coronavírus

O que será do mundo pós-pandemia? Tentar responder a essa pergunta atualmente é quase como tentar decifrar o sentido da vida. Para pensar sobre que mundo teremos passada a maior crise sanitária já vivida pelo planeta Terra, o Goethe-Institut buscou em “Pensando o Amanhã”, a partir do depoimento de artistas e intelectuais do mundo todo, uma reflexão sobre o futuro. Escritores, músicos, filósofos, historiadores tentaram, a partir da vivência de cada um, projetar o planeta encerrada a necessidade de isolamento social.

ASSISTA VÍDEOS DE DIVERSOS PAÍSES SOBRE COMO AS CIDADES ESTÃO ENFRENTANDO A VOLTA AO “NOVO NORMAL”

A transformação pela arte

Angela Su, artista de mídia e performer de Hong Kong, não acredita em mudanças radicais no comportamento humano pós-pandemia enquanto a sociedade ainda estiver enraizada em conceitos neoliberais, capitalistas e patriarcais. Ela teme uma guerra por recursos naturais, dependência ainda maior da internet e China e Rússia em luta para se tornar o país mais poderoso do mundo. Mas vê esperança na beleza, expressa na maneira em que a arte pode emocionar e transformar um indivíduo. “Continuo com a ilusão de que a arte de alguém, ou até mesmo meu trabalho, possa tocar uma pessoa em um canto remoto do mundo e fazer com que essa pessoa traga mudanças capazes de salvar a humanidade”.

Treinador elíptico

A escritora tcheca Petra Hulová cita o filósofo também tcheco Václav Bělohradský para refletir sobre o momento e o que há de vir passada a pandemia. Václav definiu certa vez que uma crise deveria nos permitir a escolha entre catástrofe e alternativas. “O que estamos todos experimentando no momento é um empurrão nos limites da nossa imaginação”, acredita Petra. “Sempre nos foi dito que vivemos em um sistema que não pode ser mudado, para o qual não há alternativas. No entanto, agora vemos como a vida pode mudar radicalmente em questão de dias. Essa experiência em si é valiosa”, aponta. Para ela, a esperança está no potencial de mudança. Ela entende haver conexões entre o capitalismo, mudança climática e o covid-19, sendo o vírus a “personificação de uma natureza e uma sociedade doentes”. “O coronavírus é nosso treinador elíptico, nos ensinando a ver o mundo e a nós mesmos sob uma nova luz. Se ele não nos quebrar, vai nos fazer mais fortes”.

Lidar com o luto

Ciente de que o número de mortos em alguns países da América Latina deve ficar na casa dos milhares – se não dos milhões – a filósofa mexicana Julieta Lomelí entende que o saldo final de vítimas deve causar um impacto indelével na saúde mental das populações. Fundamental para o enfrentamento da covid-19, o confinamento social também tem um preço a ser pago, não só econômico. E isso tem se refletido em seu país, onde boa parte da economia está pautada no comércio informal. “No longo prazo, a generalização da dor da perda de membros da família forçará o Estado a dedicar mais atenção e um orçamento maior a questões de saúde mental”, avalia. Neste caso, Julieta entende que o desafio imediato do México e também da América Latina será o de aprender a lidar com a morte em larga escala, superar o luto e lembrar que a recessão econômica, em algum momento, vai passar. “Uma consequência positiva será a exigência, vigilância e mobilização de cidadãos para que o Estado garanta o direito à saúde e faça da assistência médica um serviço universal e gratuito, independentemente da classe social.”

Desejo insistente de viver

Vivendo no país em que o governo federal se coloca contra as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), o artista soteropolitano Tiago Sant’anna vê com dificuldades fazer uma previsão do que será o mundo pós-pandemia. “Mas um fator é quase certo”, constata: “as desigualdades irão aumentar razoavelmente. As medidas para as pessoas mais pobres são limitadas. As campanhas de doação e as ações de filantropia não serão suficientes porque precisamos de políticas sociais mais profundas e efetivas – em curto e longo prazos”, lamenta. Apesar do desalento com que a realidade atual se apresenta, o artista vê que a superação a essa crise sanitária sem precedentes virá por meio de “lutas diárias, do senso comunitário que nos une e do desejo insistente de viver.”

De volta à caverna

O jornalista alemão George Seesslen retorna à alegoria da caverna, de Platão, para apontar o momento atual, em que “somos dobrados novamente e, enquanto podemos esperar por um novo desdobramento, isso não é uma situação tão miserável. Mas quanto tempo dura essa espera? E que poder ganha a impaciência?”, questiona. Embora ainda veja o mundo enfrentando crises diferentes – a “matriosca” (uma crise dentro de uma crise); a “teoria da idade das trevas” (ascensão de doutrinas de salvação e redenção e teorias da conspiração; ameaça de uma ampla catástrofe ecológica; guerras civis como um estado permanente) e a própria crise do coronavírus, que une as crises entre si enquanto aparenta encobri-las – sua esperança está na libertação do sujeito que pensa criticamente. E que pode ser ele o agente provocador da mudança no mundo a partir do isolamento.

De Curitiba

Em breve, o site apresentará também uma contribuição genuinamente curitibana: a escritora, jornalista e ativista Bebeti do Amaral Gurgel foi convidada pelo Goethe-Institut Curitiba a escrever para o site. O texto de Bebeti irá ao ar nos próximos dias.

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