Os casamentos de fachada dos astros da era de ouro de Hollywood

Na década de 1920, conhecida como a Idade de Ouro de Hollywood, diversos artistas que se encontravam no auge de suas carreiras tiveram que readaptar suas vidas íntimas para se encaixarem às regras que os eram impostas pelos estúdios. Entre elas, estava a obrigação de que astros LGBTQ+ não assumissem sua verdadeira orientação sexual. 

Para isso, eles deveriam se casar com pessoas do sexo oposto como forma de garantir que sua imagem não fosse “manchada” diante da revelação de um relacionamento homossexual. Apesar de, na época, a representação de homens vestidos de mulheres nas telas não ser um grande tabu como se tornou ao passar do tempo, o mesmo não era bem aceito fora dos holofotes. 

Segundo o autor do livro The Prime Time Closet: Uma história de gays e lésbicas na TV e professor de Estudos de Tela na faculdade de Ithaca, em Nova York, Stephen Tropiano, os casamentos de fachada se tornaram comuns, e eram organizados pelos próprios estúdios entre as celebridades que eram gays, lésbicas ou bissexuais até os anos 1960.

As cerimônias faziam parte das “cláusulas morais”, impostas pelas grandes produtoras, que também permitia que a empresa parasse de pagar o salário dos artistas caso eles deixassem de ser respeitados pelo público – seja por escândalos sexuais ou envolvimento com atividades criminosas. Topiano diz que “Muitas dessas decisões que estavam sendo tomadas eram econômicas. Era sobre uma pessoa segurando sua carreira”. 

Os primeiros casos

Um dos primeiros casamentos que foi especulado pela mídia como sendo de fachada, foi a união em 1919 de Rudolph Valentino, símbolo sexual da época, e Jean Acker onde, segundo boatos, era lésbica. De acordo com uma publicação feita pelo The New York Times em 8 de novembro de 1991, a mulher teria se arrependido do matrimônio no dia da noite de núpcias, trancando seu marido do lado de fora do quarto de hotel. Pouco tempo depois eles acabaram se divorciando. 

1924: Rudolph Valentino (1895 – 1926) em ‘Monsieur Beaucaire’

Entretanto, descobrir quais casais não eram verdadeiros tornou-se uma missão impossível, já que não existiam provas concretas e todos se baseavam apenas em rumores. Entre as fontes que alimentavam as especulações, está o livro Serviço completo: minhas aventuras em Hollywood e o sexo secreto da vida das estrelas, do autor Scotty Bowers. 

Nele, o ex-fuzileiro naval também considerado como cafetão de Hollywood, conta sobre suas aventuras sexuais que teve desde 1946 com diversos homens e mulheres. Entre elas, está o relacionamento que durou pouco mais de uma década com o ator Cary Grant, astro de filmes como Intriga Internacional (1959), Ladrão de Casaca (1955) e Charada (1963), e seu colega de quarto Randolph Scott.

Cary Grant e Randolph Scott, que supostamente eram um casal

Em 2012, Jennifer Grant, filha do ator, contestou todas as acusações feitas por Scotty dizendo, segundo o The New York Times, através de uma porta-voz, que tudo escrito no livro seria mentira e que seu pai era “muito hétero”. 

Outro casamento que foi muito especulado pelo público foi entre o ator Rock Hudson e sua secretária Phyllis Gates, no ano de 1955. Apenas dois anos depois da união, inúmeros rumores sobre a homossexualidade e infidelidade do artista começaram a ganhar força na mídia, e eles anunciaram a separação. 

Rock Hudson ao lado de seu grande amor, Lee Garlinton

William Haines, astro de filmes como Fazendo Fita (1928), Brown of Harvard (1926) e Os Fuzileiros (1926), foi um dos primeiros que negou esconder seu relacionamento homossexual, em 1930, com o ex-marinheiro Jimmy Shields. 

O artista havia sido contratado pela MGM entre as décadas de 1920 e 1930, e não teve problemas com a popularidade quando o público descobriu que ele estava se envolvendo com um homem, mesmo que não tivesse dito nada. Contudo, de acordo com Tropiano, o ator foi obrigado a decidir se continuaria com sua carreira ou ficaria com seu namorado. 

“[Haines] teve que fazer uma escolha entre se livrar de seu parceiro e ter uma carreira. “E ele realmente escolheu o parceiro masculino”, disse Stephen. Haines acabou deixando as telonas e criou um negócio de design de interiores com seu amado. Atualmente, ele é considerado uma das primeiras estrelas de Hollywood a se assumir gay. 

A partir dos anos 1960, os casamentos de fachada se tornaram cada vez menos populares, principalmente pelo grande crescimento dos movimentos pelos direitos LGBTQ+, influenciados pela rebelião de Stonewall de 1969.

VIA

Em Festim Diabólico, de 1948, podemos encontrar uma das primeiras representações claras de um casal gay em um filme.

Hitchcock fez questão de retratar os protagonistas do longa como um casal, simulando até mesmo uma “cena de sexo” na abertura do filme: o grito, a luz apagada e o cigarro. Você pode entender tanto como o assassinato quanto como uma cena de sexo, e isso foi proposital. O diretor, além de tudo, sabia que seus protagonistas eram gays na vida real também, e não tinha problema algum com isso.

Este artigo mostra como Alfred Hitchcock, inclusive, gostava de colocar subtextos gays em personagens de seus filmes. Na maioria das vezes bem mais sutis que no caso de Festim Diabólico. Mas em Um Corpo Que Cai, Pacto Sinistro, Intriga Internacional e Rebecca por exemplo, o subtexto está lá. Sem contar, claro, Psicose.

 Brandon (John Dall) e Philip (Farley Granger) em Festim Diabólico: os atores interpretavam um casal em cena e também eram gays na vida real.

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