Resenha do blog – Oscar edition: As Aventuras de Pi

Alguns diretores possuem uma sensibilidade impressionante. Sem apelar, sem dramalhão, sem parecer novela mexicana, conseguem nos tocar das mais diferentes formas, despertando nossas emoções mais íntimas e fazendo as lágrimas transbordarem de forma descontrolada. Geralmente não são apenas situações, mas interpretações impecáveis aliadas a um ótimo texto, uma direção de arte afinada e uma fotografia deslumbrante. Foi assim com Razão e Sensibilidade (de forma não tão avassaladora), O Tigre e o Dragão e devastadoramente com O Segredo de Brokeback Mountain. Agora Ang Lee consegue de novo. Depois do menos comentado – mas não pior – Aconteceu em Woodstock, o diretor brinda o mundo com uma das obras mais sensíveis e belas do cinema neste ano: As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012).

Pi (a explicação de seu nome é ótima!) é um jovem indiano que está indo embora de seu país natal rumo à América do Norte com a família. Seu pai, dono de um zoológico, decide levar a todos – incluindo boa parte dos animais – para um novo país para recomeçar a vida. No caminho o cargueiro em que viajam naufraga e Pi é o único sobrevivente em um bote salva vidas, junto com um orangotango, uma zebra, uma hiena e um tigre. Os grandes personagens do filme são realmente Pi e o tigre de bengala (inacreditavelmente digital em boa parte do filme). Toda a ação é baseada em histórias que um já adulto Pi conta para um escritor disposto a escrever um livro sobre sua vida.
Assim como o personagem, nós do lado de cá da tela temos que subir no bote e embarcar. Acreditar no que o narrador diz é ponto fundamental para se gostar do filme. Aliás, é preciso esclarecer que ao contrário do que o nome dado ao filme no Brasil para atrair público demonstra, o filme não é bem uma aventura. Aqui vale colocar que em Portugal o filme se chama A Vida de Pi, muito mais adequado e literal. Apesar dos “bichinhos” não é nem de longe um filme pra crianças, que vão se chatear durante a longa introdução do filme até que o embate com o tigre realmente aconteça. As Aventuras de Pi é na realidade um drama. Um drama de sobrevivência, de fantasia. Em certo ponto chega a lembrar Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas do diretor Tim Burton: cabe a nós decidir em que acreditar.
Contando em sua grande parte com atores desconhecidos (Gerard Depardieu faz uma ponta) e em boa parte do filme somente com Pi e o tigre em cena, o filme em momento nenhum fica chato ou arrastado. Acabamos por nos envolver demais com o náufrago – e nisso o fato de Suraj Sharma ser um ator desconhecido ajuda muito – e com o tigre e estamos estarrecidos com a beleza plástica das cenas para nos deixarmos abater por qualquer outra coisa que não seja o desespero daquele rapaz em sobreviver.
Impressionante visualmente do início ao fim, com um 3D que serve ao filme e não o contrário, Ang Lee mostra que esta nova tecnologia pode viver junto com uma boa história e não ser a razão dela. Bem como Martin Scorsese fez ano passado com seu Hugo Cabret e ganhou 5 Oscars. As Aventuras de Pi concorre este ano a 3 Globos de Ouro (melhor diretor, melhor trilha sonora e melhor filme drama) e é tido como certo entre os indicados ao Oscar de melhor filme pelo menos. Se os demais filmes tidos como favoritos mantiverem este nível será difícil escolher. Se bem que eu optaria pela sensibilidade de Ang Lee ainda sem ver os demais. O dramalhão épico-musical de Tom Hopper (ganhador do Oscar de melhor filme ano passado) Os Miseráveis parece exagerar no tom já nos trailers e a aventura de ação futurista dos criadores da trilogia Matrix, A Viagem, parece demais pros membros da Academia de Hollywood digerirem. 

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