Resenha do blog: Os Amantes Passageiros

A Espanha passa por uma crise econômica quase sem precedentes na história do país. A classe média padece de dificuldades financeiras terríveis, o desemprego bate recordes (está na casa de 6 milhões de desempregados). Seus comandantes se recusam a dar esclarecimentos à população e o país parece abandonado à própria sorte sem ter a quem recorrer. Daí você pergunta: mas este texto não era sobre o filme Os Amantes Passageiros? Sim, é. A questão é que o filme é uma grande metáfora para a situação econômica do país de origem de seu diretor, Pedro Almodóvar. A Espanha aqui é um avião da fictícia companhia Península impedido de pousar e obrigado a rodar em círculos no ar. A classe média está representada pela classe econômica dentro da aeronave, dopada para não saber o que está acontecendo. E os comandantes que se recusam a dar explicação à população são os pilotos.

Daí novamente você leitor se pergunta: mas então é um daqueles filmes de protesto chatos e políticos? Claro que não! Estamos falando de Pedro Almodóvar afinal de contas! Um diretor mestre em dosar seus dramas e comédias na medida certa para agradar seu público. Estamos falando de um diretor com público cativo e fiel, é verdade, e a este público ele mais uma vez não decepciona. Principalmente àquele público que amou seus dramas mas sentia saudades de suas comédias.

Logo no início, em uma participação especial, Antonio Banderas e Penélope Cruz acabam por causar o acidente que irá deixar o avião impossibilitado de pousar, estragando um dos trens de pouso. A bordo, permanecerão acordados os membros da classe executiva, piloto e co-piloto e três comissários gays assumidos. Um único personagem da classe econômica será importante na trama, porém sem acordar. As piadas rolam soltas com tipos estereotipados mas não por isso menos engraçados: uma possível vidente já meio avançada na idade que quer perder a virgindade (Lola Dueñas, de Volver e Fale Com Ela); uma dominatrix especializada em atender homens importantes (Cecilia Roth, de Tudo Sobre Minha Mãe); um ator de novelas (Guillermo Toledo, de O Outro Lado da Cama); um empresário que está fugindo por dar um golpe bilionário em um banco espanhol (José Luis Torrijo, de Tudo Sobre Minha Mãe e O Labirinto do Fauno); e um segurança de personalidade duvidosa (José Maria Yazpik, de Vidas Que Se Cruzam). Além de um casal em lua de mel e claro dos grandes protagonistas do filme.

Joserra, Fajas e Ulloa são os três comissários encarregados da classe executiva. Com tendências ao alcoolismo, um deles católico devoto e outro que não consegue mentir, o trio carrega o filme (e o avião) nas costas fácil fácil. Respectivamente Javier Cámara (que já trabalhou com o diretor em Má Educação e Fale Com Ela), Raúl Arévalo e Carlos Areces. Sem pudores ou limites, os três protagonizarão desde cenas de sexo (nada explícito… ou quase nada) até o número musical de I’m So Exited divulgado na internet antes da estreia do filme. Sexo, álcool, cores chamativas, discussões, dramalhão… tudo como só Pedro Almodóvar é capaz de juntar num cenário só. É fácil rir com o filme mesmo desconhecendo a crise espanhola, que não é citada em momento algum. Mas as críticas estão ali e não só à crise, como um funcionário do aeroporto mais empenhado em tuitar que está “se esvaindo em sangue” do que em procurar ajuda.

Em recente entrevista, o diretor disse ele mesmo estar sentido falta de suas comédias. Várias foram as críticas a este Os Amantes Passageiros, mas ele está bem longe de ser um filme ruim. Pode não se comparar a Tudo Sobre Minha Mãe ou A Pele Que Habito, por exemplo, mas é tão divertido quanto Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos e algumas vezes melhor que o esquecível Abraços Partidos. A simpatia e diversão com que o Almodóvar é frequentemente fotografado parece transparecer em seus filmes. De um timing incomparável, ele é capaz de ir do drama à comédia em segundos, mesmo em casos mais leves como neste filme. Sem nunca descambar para o xulo ou o mal gosto, mesmo as piadas envolvendo sexo atingem um outro nível em suas mãos hábeis. É bem verdade que o filme perde um pouco de ritmo quando em chão, mas nada que comprometa o todo.

É pena que a não ser para seu público cativo o diretor passe desapercebido. Com quase um filme por ano, sua obra é tão variada quanto colorida, passando pelo drama, comédia, suspense, romance e qualquer outro gênero. Muitas vezes tudo num filme só. Este não é diferente. Inclusive é importante ressaltar que no final do filme Almodóvar dá uma amostra da tal crise do país: as últimas cenas são filmadas em um aeroporto vazio. Um dos 17 aeroportos construídos na Espanha que estão sem uso. E a gente aqui pensando que essas coisas só acontecem no Brasil. Mas o melhor mesmo é esquecer a crise espanhola e se divertir com o filme que é sim engraçado e leve. Gostoso de assistir e descaradamente escrachado e tolo. E tem orgulho disso, o que deixa tudo ainda mehor.

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