Resenha do site #IgnoradosOscarEdition – Walt Nos Bastidores de Mary Poppins

waltnosbatidoresdemarypoppinsEm 1961 os estúdios Disney já estavam consagrados no ramo da animação. Desenhos como Branca de Neve e Os Sete Anões, Fantasia, Peter Pan, Alice no País das Maravilhas, Dumbo, Bambi, Cinderela e A Dama e o Vagabundo já eram sucesso. O parque temático Walt Disney World já era um desejo de crianças e adultos. Mickey já era o rato mais conhecido do mundo. Não é a toa então que a primeira e mais importante revindicação da autora PL Travers seja para que seu livro não vire uma “tola animação”.

Walt Nos Bastidores de Mary Poppins é um filme fantástico que nos leva a uma emocionante viagem a duas épocas distintas: vemos a pequena Helen “Ginty” Goff indo embora da Austrália para Londres com os pais e duas irmãs menores. O pai, uma criança grande, vive no mundo da fantasia e leva a vida como quem brinca em um carrossel. Passando por sérias dificuldades financeiras a menina constantemente testemunha a mãe sofrendo enquanto o pai, alegre, age como se não existissem problemas e se esconde atrás da bebida. Ao mesmo tempo acompanhamos a Sra. PL Travers: uma mulher amargurada, que acha que fantasia é um veneno, que não sorri e não vê motivos para se maravilhar com nada. Extremamente crítica, ela não poupa ninguém, disposta a ofender qualquer um que discorde dela, ainda que seja para trazer as pessoas para a realidade, ao menos em sua concepção.

Essas duas histórias se intercalam com um fio condutor em comum: Mary Poppins. Se quando criança a pequena Ginty (que se tornará PL Travers) vê o mundo de fantasia do pai como uma fuga e sente que sua vida só entra nos eixos quando a tia Ellie aparece em cena e se torna inspiração para a babá mais conhecida do cinema, quando adulta Travers vê seu livo virar sucesso e dinheiro acabar. E por 20 anos tem proposta de um homem para transformá-lo em filme. Bom, não exatamente um homem, mais uma lenda: Walt Disney.

Sim, o Sr. Disney (como ele não gostava de ser chamado) insistiu por vinte anos até conseguir levar Mary Poppins para a s telas. Ano após ano Travers negava, até que sentiu que precisava realmente de dinheiro. Mas sua relutância (e a insistência de Disney) só serviriam para comprovar um fato: Poppins era extremamente importante para ambos. Travers a considerava parte de sua família – e de fato descobrimos que seu livro era praticamente autobiográfico -, enquanto para Disney a babá era uma promessa de um filme feita às filhas – claro que sem deixar de lado o certo retorno financeiro.

Enquanto vemos a pequena Ginty sendo literalmente traumatizada pelo comportamento feliz do pai, vemos a madura Travers rigorosa como uma professora de internato em reuniões de roteiro e ensaio hilárias (e reais). Ela risca falas no papel, implica com bigodes e pinguins, pergunta o que são aquelas palavras inventadas e ordena que eles as “des-inventem”, diz terminantemente que “seu filme” só sairá com sua aprovação total e que, definitivamente, não terá música. Afinal Mary Poppins não é tola e frívola a ponto de sair cantando por aí. O fim dessa história é bem diferente e a gente conhece bem. Mas não é isso que importa realmente. O roteiro de Kelly Marcel e Sue Smith foi inspirado no livro Mary Poppins, She Wrote, que conta parte da biografia de Travers. Pincelado com sequências criadas pelas roteiristas, acaba se tornando mais que uma mera cinebiografia.

Sendo um filme dos estúdios Disney, era muito provável que o estúdio desse muitos palpites no roteiro, esperado até. Mas o que aconteceu é que o roteiro estava pronto, parado na chamada “black list” de Hollywood (roteiros bons que não encontram apoio). Quando o estúdio assumiu a filmagem, fez apenas uma exigência: que Walt Disney – fumante inveterado – não fumasse em cena. Fato que não passa desapercebido no filme, claro, mas você não o verá fumando na tela.

Ao reunir na tela dois dos maiores ícones do cinema de todos os tempos, Walt Disney e Mary Poppins, o filme presta uma homenagem. Uma homenagem à sétima arte e a todos aqueles apaixonados por ela. É impossível falar em cinema sem falar em Walt Disney. E é impossível falar de Walt Disney sem falar de Mary Poppins. Travers, ainda que a contragosto, ajudou Disney a criar um ícone que somente em livro não atingiria a proporção que atingiu. Ao traduzir a história da babá voadora em uma metáfora para a relação de Travers com o próprio pai, o filme nos leva muito além das canções, danças e animações de Mary Poppins. Consegue nos levar para dentro da mente da autora, entender seu comportamento adulto (até mesmo justificá-lo) e nos faz ver tudo com outros olhos. Claro, Walt Nos Bastidores de Mary Poppins também nos mostra outra lição importante: o senhor Walt Disney de bobo não tinha nada, e por trás da sentimentalidade de “preciso adaptar seu livro porque prometi às minhas filhas” estava um homem de negócios, que sabia o que lhe daria retorno ou não e via uma personagem com infinitas possibilidades escorrer pelas mãos de uma mulher amargurada pelo tempo.

disney

Claro que ter o ator mais adorado de Hollywood personificando o ícone Walt Disney ajuda em muito. Tom Hanks está leve, divertido e demonstra se sentir bem e confortável na persona de alguém que desde sempre mora em nosso subconsciente. Mas o filme é mesmo de Travers. Uma das mais talentosas atrizes de sua geração, Emma Thompson transforma o que poderia facilmente virar uma caricatura numa pessoa real que, por mais chata que seja, não conseguimos odiar. Paul Giamatti é o motorista que a leva para o martírio que é ir todos os dias para os estúdios Disney; Colin Farrell é o pai da pequena Ginty, a quem vemos definhar na tela; Jason Schwartzman e B.J. Novak são os irmãos Sherman, responsáveis pelas músicas do clássico. Numa das maiores injustiças do Oscar nos últimos anos (talvez comparada ao que aconteceu com Hitchcock ano passado), Walt Nos Bastidores de Mary Poppins foi indicado apenas na categoria melhor trilha sonora, mesmo sendo indispensável para o cinema.

Sim, no final das contas todos sabemos que o livro vira filme, é indicado a 13 Oscars, incluindo melhor filme, e ganha cinco (melhor atriz para Julie Andrews e edição de arte entre eles) e se torna um verdadeiro clássico do cinema com músicas que cantamos até hoje. A figura da babá voando com seu guarda-chuvas encantou e ainda encanta gerações (hoje em dia de pais mais saudosistas, é verdade) e não perdeu a magia mesmo depois de 50 anos de sua estréia, completados em 2014. Já transformado em musical da Broadway, Mary Poppins ainda é uma história com força e fantasia suficiente para durar mais alguns 50 anos pelo menos. E Walt Nos Bastidores de Mary Poppins demonstra um pouquinho o porquê: ela trata de pessoas reais, sua autora viu ali sua própria família. E claro, mostra como Walt Disney tinha olho clínico para essas histórias e sabia criar clássicos como ninguém. Basta recomeçar este texto e ver os nomes dos desenhos citados lá em cima.

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