‘Na Medida do Impossível’: Uma doce viagem no tempo

Por Flávio St Jayme

Quando os primeiros acordes de Doce Companhia, primeira faixa de ‘Na Medida do Impossível’ começam, nossa alma se acende. Quando a voz de Fernanda Takai soa pela primeira vez, é impossível não deixar escapar um sorriso.

fernanda-takai

Sim, o quarto disco solo da vocalista da banda mineira Pato Fu é, essencialmente, doce. Como sua artista. A voz suave de Fernanda, tão característica, vai longe das (antigas) forças musicais do Pato Fu e passeia por melodias calmas, carinhosas e bem elaboradas.

O disco vai rolando e, de repente nos surpreendemos. Já na segunda faixa, um samba canção de Benito di Paula ganha ares de pop contemporâneo. Daí pra frente vamos da surpresa ao êxtase de faixa a faixa. Composições conhecidas de Reginaldo Rossi, Leno (que fazia dupla com Lilian na Jovem Guarda) e Padre Zezinho fazem par com novas músicas de Julieta Venegas, Marina Lima, Pitty, Marcelo Bonfá e Samuel Rosa.

O quarto álbum solo de Fernanda (antes vieram ‘Onde Brilhem os Olhos Seus’, ‘Luz Negra’ e ‘Fundamental’) não passa exatamente longe do Pato Fu. Mas as diferenças são claras. Este disco tem mais a cara da cantora, ao contrario dos discos da banda, que têm mais a cara de seu marido John Ulhôa, parceiro de Pato Fu e guitarrista em ‘Na Medida do Impossível’. Fã de carteirinha (literalmente) da banda brasileira Blitz e da inglesa Duran Duran, Fernanda abraça o pop sem medo de dar sua cara e de cantar o que quer.

fernanda takai

Em 1992 ao lado do marido Ulhôa e de Ricardo Kokctus ela fundaria o Pato Fu. Quatro anos mais tarde, Xande Tamieti entraria para o grupo. De uma banda com cara de experimental, em 1998 o Patu Fu passou ao patamar de grande no pop brasileiro com o disco ‘Televisão de Cachorro’ e o hit Antes Que Seja Tarde. Daí pra frente quase nunca ficou fora dos holofotes e nunca deixou de lado as experimentações. O disco ‘Música de Brinquedo’, por exemplo, era um álbum só de regravações que iam de Titãs a Alceu Valença e foi inteiramente executado com instrumentos de brinquedo, contando com a filha do casal de 5 anos nos vocais. Virou show infantil e concorreu a prêmios.

Mas Fernanda precisava abrir suas próprias asas, e em seus projetos solo foi conquistando a crítica mais “adulta” e metida a entendida, que ainda podia torcer o nariz para o Pato Fu. Comeu quieta, como boa mineira (falsa, na verdade ela nasceu em Serra do Navio, no Amapá): primeiro um tributo ao ícone Nara Leão. Depois uma parceria com o ex-guitarrista do The Police Andy Summers num disco de bossa nova eletrônica. Agora, depois de estabelecida em voo solo, grava o que quer. A mistura de brega com pop é a sua cara e a delícia que é ouvir ‘Na Medida do Impossível’ é tão indescritível quanto o disco é eclético. ‘Na Medida do Impossível’ é como uma cesta de doces onde encontramos aquele que mais gostamos ao lado de um que nos parece estranho mas na primeira mordida nos apaixonamos.

nuncaCantora reservada, que não expõe sua vida pessoal e não está sempre na mídia, Fernanda é dona de um estilo ímpar. Já lançou livro (Nunca Subestime uma Mulherzinha, que este que vos escreve tem autografado) e já cantou em parceria com artistas tão díspares como Erasmo Carlos, Ira ou Gaby Amarantos. Já fez versões de músicas de Michael Jackson, Beatles e Duran Duran. Com o Pato Fu já abraçou artistas como Manuela Azevedo (da banda portuguesa Clã), Lulu Camargo (do Karnak) e Hique Gomez e o falecido Nico Nicolaiewsky (que formavam a dupla Tangos & Tragédias). No balaio de doces de ‘Na Medida do Impossível’ traz as vozes de Zélia Duncan, Samuel Rosa (do Skank) e Padre Fábio de Melo. Sobre a participação do Padre, Fernanda afirma que os fãs não devem se surpreender: “Eu tocava nas aulas de religião da escola. Não sou de frequentar a igreja, mas gosto da ideia de a música servir como instrumento de uma mensagem positiva”.

O fato é que tanto Fernanda Takai quanto o Pato Fu alcançaram um patamar de qualidade em que podem se dar ao luxo de experimentações. O Pato Fu amadureceu a ponto de saber envelhecer com seu público: se quando surgiu fazia música para jovens, hoje faz música para estes mesmos jovens curtirem com os próprios filhos. Assim, como sua banda, Fernanda também soube amadurecer e abraçar diferentes vertentes musicais (sendo elas o brega ou o pop religioso) e condensá-las sob sua perspectiva. Hoje, com 42 anos de idade, dos quais 22 dedicados à música, Fernanda é uma artista extremamente talentosa, dona de uma voz ímpar e muita personalidade. É praticamente impossível não se encantar com sua persona e sua voz. Hoje, ela se diz finalmente segura de si e de sua carreira, sem medo de receber e enfrentar críticas: “Não deixo de fazer algo porque alguém pode dizer que não gostou. Prefiro gravar e arcar com as críticas e elogios“. Mesmo os mais céticos e descrentes no talento da mineira irão sacolejar nem que seja um pouquinho ao ouvir os versos de Amar Como Jesus Amou com sons de video game no fundo. É isso: Fernanda tem o talento de transformar a mais inusitada das músicas em algo que colocamos na hora em nosso iPod para ouvir o dia todo. E sim, o mesmo se pode dizer de versos antes inadmissíveis de serem ouvidos por alguém com menos de 50 anos como “Todo mundo tem, um amor na vida, e por ele tudo é capaz. Eu tenho uma paixão, que é proibida, só poque sou pobre demais”…. É, Fernanda, você consegue o impossível.

O disco ‘Na Medida do Impossível’ foi lançado no último dia 18 de março, e pode ser ouvido integralmente no Facebook da cantora.

Eu e Fernada Takai no lançamento de 'Nunca Subestime uma Mulherzinha' em Curitiba, em abril de 2008
Eu e Fernada Takai no lançamento de ‘Nunca Subestime uma Mulherzinha’ em Curitiba, em abril de 2008

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